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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

09/02/2020 06h00
Por: Redação

Vengo, com mis manos llenar - A violência está batendo à nossa porta. A intolerância e as diferenças, a agressividade e as discriminações, o ódio e o discurso de ódio, as cabe-ças e corações duros, a falta de consciência política e social, só fazem aumentar a violên-cia. A mídia faz questão de produzir alarmes e alertas para aumentar a sua audiência – o que também produz mais violência, criando a sensação de que todas as pessoas estão prontas para nos bater, assaltar, roubar, furtar, assediar, sequestrar, matar. 

 

Vengo, porque tú no has vuelto más - Essa violência dita física é consequência da vio-lência do sistema de consumo, da violência do individualismo exacerbado, da violência do mercado, que nos transforma a todos em mercadoria. Aliás, tudo virou mercadoria, porque coisa. Ninguém é visto e percebido, pensado e sentido em sua inteireza e integri-dade, em sua completude e totalidade, mas apenas como um número, mais um na multi-dão. 

 

Vengo, como um niño que se perde – Vivemos a sensação de que há no mundo apenas dois tipos de pessoas: vítimas de um lado e criminosos do outro, os bons de um lado e os maus do outro. Claro, nós sempre pensamos estar do lado das vítimas e dos bons. Quem não está comigo está contra mim! Quem não é capitalista é comunista, ou terro-rista! Quem não é cristão é coisa do capeta, ou escória! Quem não é branco é bandido, ou pobre! Quem não é rico é uma ameaça, ou um problema! Quem não é hétero é trem ruim, ou demônio encarnado! 

 

Vengo, por volver de nuevo a verte - Há muito ódio espalhado por todos os cantos e re-cantos. Há muitas armas, irônica e sadicamente, espalhadas ao lado de escolas e hospi-tais, de moradias e praças. Quanta esquizofrenia! Quanta insensatez! Todas as vezes em que entendemos a violência e a guerra, a fome e a miséria, como algo separado de nós – isso nunca vai acontecer comigo – mas não tenho culpa alguma – não fui eu quem criou este problema – acreditamos que não temos responsabilidade nenhuma. 

 

Perdóname, por tanto amor, por no vivir sin tu calor - É bom não nos esquecermos de que há uma cumplicidade silenciosa e latente, mesmo que não tenhamos ciência dela. A humanidade, histórica e culturalmente, criou a figura do bode expiatório – purificação coletiva – com a morte dele o mal estará eliminado de nosso meio. Assim, o bode morre no meu lugar, no nosso lugar, no lugar de todos. 

 

Perdóname, por no saber dejar morir mi corazón - A figura do bode – ação de extermí-nio – funciona como catarse. A eliminação de um possível inimigo não acaba com o mal do mundo, porque o mal mora no homem, dentro de seu corpo e de sua alma e alguns sempre querem levar vantagem, muita vantagem numa sociedade tão polarizada. O ci-nema e principalmente os filmes norte-americanos gostam e criam obras de super-heróis, com a vitória do bem naquela situação e momento, mas não elimina o mal por completo. 

 

Vengo, como um ciego hacia la luz - O Coringa – o contraponto de Batman – em 2019, não por acaso, vira o filme de maior sucesso de bilheteria. No fundo, queremos que o Coringa nunca morra! No fundo, somos todos a favor da liberação do uso de armas e até de grupos de extermínio. O joio sempre nascerá no meio do trigo. As tiriricas sempre nascerão entre flores. É possível separadas o joio do trigo? É possível arrancar as tiriri-cas dos jardins? Há muito joio e muitas tiriricas também na nossa alma. Queremos eli-minar o joio e as tiriricas dos outros, mas não desejamos que façam isso conosco. 

 

Busco em tus ojos mi quietd - Jogamos a responsabilidade toda para as instituições, pa-ra os governos, para os poderes executivos e legislativos e judiciários, para as escolas, para as religiões, isentamo-nos de qualquer responsabilidade, ou o confronto com nós mesmos. O homem individual habita no homem coletivo e vice-versa. Isso para dizer que o mal coletivo é também um mal pessoal até por causa de nossa omissão e de nosso comodismo. 

 

Sinto que mi vida está em tus manos - O mal que nos parece estranho, que parece estar fora de nós, como projeção dos outros, está introjetado em nós mesmos, queiramos ou não. O crime e o pecado de meu vizinho são também meus. Um dia foi feita uma pesqui-sa entre universitários da USP e o resultado foi surpreendente. Foi-lhes perguntado se você era racista. A resposta: 98% dos universitários disseram que NÃO. Em seguida, foi-lhes perguntado se você conhece alguém racista. A resposta: 98% dos universitários disseram que SIM. Como é difícil cada um de nós reconhecer os próprios crimes e peca-dos, já que tudo isso é projetado nos outros, como se fossem portadores de todos os males do mundo! 

 

Vengo, porque no puedo olvidarlo - Nós fomos educados para não nos expor, para ocultar a nossa parte mais íntima e perigosa. Nós fomos educados para deixar que os outros só vejam a nossa parte mais superficial e aceita por todos. Assim, nós nos consi-deramos sempre uma pessoa boa, porque também nós não nos conhecemos completa-mente. Chamam a isso de instinto de defesa da própria individualidade. Isso faz com que, por exemplo, nós justifiquemos todos os nossos atos, mesmo se violentos. 

 

Perdóname, por tanto amor, por no vivir sin tu calor - Assim, acontecem com alguns pais que batem violentamente em seus filhos com a justificativa de que é dever deles educarem o filho, de que uma surra é necessária. Estamos criando sempre mecanismos e justificativas para a violência praticada por nós. Vamos endurecer mais as leis para acabar com os bandidos que não somos nós, vamos nos armar mais para matar todos os ladrões que não somos nós, vamos diminuir a idade penal para pôr fim na delinquên-cia infantil e juvenil que não são nossos filhos e amigos, vamos aparelhar mais a polícia para não deixar nenhum meliante vivo que não somos nós e assim tantas frases iguais. 

 

Perdóname, por no saber dejar morir mi corazón - Para nós, todas as desculpas e justi-ficativas. Isso nos fazem cúmplices de uma sociedade violenta e agressiva, conivente com os crimes e delitos. Nascemos cheios de desejos, mas que muitos deles não se reali-zarão. Daí a frustração. Da frustração nasce a culpa, da culpa o ódio, do ódio a morte. 

 

Perdóname por sete fiel - Vivemos, sim, uma cultura de morte. Os pais, os professores, os adultos, não estão preparando as crianças, os adolescentes, os jovens para a perda, para a frustração, porque também nós não fomos educados e preparados para tal. O nosso discurso atual é de fama, de sucesso, de bens, de consumo, de poder, de riquezas, de levar vantagens, de não levar desaforo. Não há como satisfazer todos os nosso dese-jos e anseios. 

 

Perdóname sin aún te quiero yo - A tomada de consciência da própria culpa, mesmo que dolorosa, pode ser o primeiro passo para a reparação – perdão a si mesmo. Nós exigimos muito mais de nós do que nos perdoamos. Porque nunca seremos autossufici-entes, os outros nos são imprescindíveis, por isso os outros podem ser o nosso céu.