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Guido Bilharinho

Advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional

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14/02/2020 06h00
Por: Redação

THE WEST: A CORRUPÇÃO

A Netflix divulga atualmente a série documentária The West em oito capítulos, dirigido e/ou produzido por Robert Redford. Como qualquer visão sobre período histórico, pode ter distorções, unilateralismos e omissões. Sabê-lo, só quem é versado profundamente no tema.

Conquanto esse relativismo das coisas humanas, a série, pelo que se vê (e lê) na tela, é notável. Percebendo-se que, conscientemente, procura evitar as negatividades acima apontadas, para fornecer visão o mais possível imparcial e completa de cada fato documentado.

Nos dois primeiros capítulos, centrados na ação e atuação de Jesse James e dos indígenas sioux Crazy Horse e Sitting Bull, o que se destaca de importante e significativo - pelo seu cunho permanente e universal muito acima dos casuísmos e condicionamentos de tempo e lugar - é a existência da corrupção na construção da mais importante linha férrea que uniu Atlântico ao Pacífico.

A empresa construtora foi acusada em 1873 pela imprensa de ter superfaturado as obras e de ter lucros superiores a cem por cento. Antes, porém, o documentário mostra a construção da linha férrea e seu extraordinário incremento para a conquista e povoamento do oeste estadunidense, fato, aliás, indubitável e inquestionável.

A questão que se pôs (e se põe), é que a campanha moralista contra a empresa resultou na primeira grande depressão da economia do país, gerando a quebra de um terço das 360 (trezentos e sessenta) empresas ferroviárias, espalhando-se por toda a economia e a paralisando, daí decorrendo desemprego e fome para milhares de trabalhadores, visto que os investidores se retraíram deixando de adquirir ações e até provocando a suspenção por vários dias das atividades da Bolsa de Valores.

A campanha moralista desencadeou o mergulho do país na sua primeira grande depressão econômica. Como toda campanha dessa natureza, atacou apenas a corrupção em si, ignorando suas causas, pelo que restaram intocáveis e incólumes o mecanismo e o sistema que a propiciaram e permitiram, que, mesmo acossados momentaneamente, voltam a incidir com mais intensidade e maiores disfarces nas atividades visadas e persistindo nas demais onde ocorrem.

Assim, pelo que mostra a História e a realidade, tais campanhas, que muito servem ao populismo e à exploração da ingenuidade da classe média, são inócuas ou têm alcance limitado e transitório, já que, sempre restritas às consequências, não são acompanhadas de intervenções nas causas da corrupção. Sem estudar, conhecer, combater e extirpar essas causas, tais campanhas – movidas, por uns, por idealismo e, por outros, por interesses ocultos e inconfessáveis – devem ser direcionadas a também combater as causas e não apenas os fatos por elas gerados e propiciados, que, por isso, estão condenados a se repetir indefinidamente.

 

Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/