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André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

16/02/2020 06h00
Por: Redação

O PRÍNCIPE VISITA A PRINCESINHA

Vilarejo perdido na boca do sertão brasileiro – o qual só se alcançava a pé, em lombo de burro ou carro de boi – durante a primeira metade do século XIX a pequena Uberaba contou nos dedos os visitantes ilustres. Essa situação começou a mudar após a Guerra do Paraguai e, em especial, quando a ferrovia da Companhia Mogiana avançou até os limites da província de São Paulo. Em outubro de 1886, Dom Pedro II e a imperatriz Dona Tereza Cristina fizeram uma visita ao interior paulista. Inauguraram estações de trem e chegaram até às cidades de Ribeirão Preto e Batatais. Foi o mais perto que um dos imperadores esteve de Uberaba; alguns dos nossos conterrâneos da época aproveitaram para ir até lá conhecê-lo.

Dois anos mais tarde, os trilhos já haviam cruzado o Rio Grande e adentravam o Triângulo Mineiro, avançando rumo a Uberaba. Em meados de março de 1889, anunciou-se que o Conde d’Eu – o francês Louis Philippe Gaston, esposo da Princesa Isabel e príncipe consorte da Casa Real brasileira – viria inspecionar as obras. Os fios do telégrafo já haviam alcançado a cidade, mas o aparelho ainda não operava e as notícias vinham truncadas. Criou-se grande expectativa diante da chegada do nobre visitante. Sucessor do Duque de Caxias no comando das tropas brasileiras na fase final do conflito contra o Paraguai, Dom Gastão havia conquistado certa fama como herói de guerra.

No final da tarde do dia 19 de março, um mensageiro vindo do posto telegráfico do Lageado confirmou que a comitiva de Sua Alteza chegaria na manhã seguinte em um trem especial, que seguiria até o limite do assentamento dos trilhos, a cerca de cinco quilômetros da cidade. Às oito da noite, confirmou-se que a chegada seria por volta das seis da manhã do dia seguinte, e que o príncipe faria uma visita rápida, pois pretendia regressar antes do meio-dia. “Tratou-se então cada um de apressar-se para o encontro, como e o mais que pôde” nos conta Antonio Borges Sampaio, correspondente local do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. São dele, e de um jornalista do Correio de Campinas que seguia a comitiva, as notícias mais detalhadas que temos sobre a visita.

Com o dia clareando, partiu de Uberaba rumo à ponta dos trilhos uma caravana de recepção formada por diversas autoridades e acompanhada pela banda musical Lyra da Mocidade. Chegaram atrasados: acompanhado pelo pessoal da Cia. Mogiana, o príncipe já havia descido do trem e o grupo preparava-se para seguir em charretes rumo à cidade. Mas houve tempo para que a banda tocasse o hino nacional, seguido por uma salva de fogos de artifício.

Chegando em Uberaba por volta das 8 da manhã, o Conde d’Eu enveredou por uma frenética sucessão de visitas e compromissos. Conheceu inicialmente as obras da estação ferroviária, em fase de conclusão (a primeira locomotiva aqui chegou cerca de 15 dias depois), onde foi saudado por uma multidão, pela banda União Uberabense e por nova salva de fogos. A comitiva atravessou a pé toda a extensão da Rua do Comércio (atual Artur Machado) até a praça da Matriz, sendo ovacionada pela população. Às portas da igreja Matriz, foi recepcionado pela banda Philarmonica Uberabense e, na praça, vistoriou as obras do Teatro São Luiz, do chafariz de ferro e do novo prédio da Câmara. Visitou ainda a casa de Borges Sampaio, onde fez questão de conhecer o famoso observatório meteorológico do historiador e jornalista, instalado em um mirante.

A comitiva dirigiu-se à estação telegráfica, ainda não inaugurada, na Rua Vigário Silva. De lá, foi ao prédio da Santa Casa onde, na época, funcionava o colégio das irmãs dominicanas. Em seguida, esteve na igreja de Santa Rita e no convento dos dominicanos. O superior, Frei Vicente Lacoste, ofereceu ao grupo um brinde com o vinho que era ali mesmo produzido, com as uvas colhidas no quintal. Por volta das 10 da manhã, a comitiva foi recebida para almoço na casa de Crispiniano Tavares, engenheiro da Cia. Mogiana. Nas palavras de Sampaio, a refeição “surpreendeu os ilustres visitantes pela ordem, delicadeza e abundância de iguarias e vinho (…) conseguindo-se preparar em Uberaba em algumas horas um banquete digno de uma cidade que dispõe de todos os recursos”. Dentre as bebidas servidas, Sua Alteza elogiou o vinho produzido na própria cidade por Joaquim Inácio Lima.

Terminada a refeição, o Conde ainda foi conhecer a Escola Normal e o prédio da nova Cadeia de Uberaba – quando deu por encerrada sua breve visita à “Princesinha do Sertão”. Passava pouco da uma da tarde quando a comitiva – acompanhada por algumas autoridades  uberabenses – embarcou no trem especial que o levou o grupo de volta à estação de Jaguara.