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Literatura

A poesia, tal como é entendida, praticada e geralmente aceita, foi o gênero literário mais cultivado em Uberaba

Guido Bilharinho

Guido BilharinhoAdvogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional.

27/02/2020 06h00Atualizado há 1 mês
Por: Redação

 A Poesia em Uberaba

        A poesia, tal como é entendida, praticada e geralmente aceita, foi o gênero literário mais cultivado em Uberaba, rivalizando com a música e as artes plásticas.

Contam-se às dezenas os compositores, os pintores e escultores. Também os poetas.

 

Classicismo

A começar por vigário Silva, padre Zeferino e João Joaquim da Silva Guimarães, pai de Bernardo Guimarães. Todos chegados à cidade nos anos de 1820. Além deles, a cultivou em Uberaba na década de 1850, quando aqui exerceu o ministério sacerdotal, o padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães, irmão de Bernardo Guimarães.

 

Romantismo e Impressionismo

Posteriormente, no decorrer da segunda metade do século XIX e até 1910, a fundação de estabelecimentos de ensino secundário iniciada em 1854 pelo engenheiro Fernando Vaz de Melo até culminar com a Escola Normal Oficial (1882), Colégio N. S. das Dores (1885), Instituto Zootécnico de Uberaba (1895), Ginásio Marista Diocesano (1903) e o surgimento da imprensa a partir de 1874 por iniciativa de Henrique Raimundo des Genettes, criando espaço para as manifestações culturais e propiciando a formação dos amplos quadros do magistério e do jornalismo, cresceu muito o número de poetas, com o exemplo mais notável da vinda e estada em Uberaba por vários anos para lecionar na Escola Normal do romancista e poeta Artur Lobo.

O historiador e polígrafo Hildebrando Pontes, em sua “História de Uberaba”, cita, entre os poetas desse período, Antônio Cesário da Silva e Oliveira Filho (o major Cesário, também historiador, jurista, jornalista e compositor), J. Gaspar da Silva (posteriormente, em Portugal, visconde de São Boaventura), José Augusto de Paiva Teixeira (Casusa, ainda jornalista e político), Aurélio de Araújo Vaz de Melo (também romancista), Elviro de Novais, Garibaldi de Carvalho Melo, Otávio Augusto de Paiva Teixeira (filho de Casusa e pai do geólogo Glycon de Paiva) e Lourival Balduíno do Carmo, autor, em 1918, da letra da “Marcha do Uberaba Sport”, composta por Rigoletto de Martino, autor, este, de mais de 200 (duzentas) composições musicais em nada menos de 17 (dezessete) diferentes gêneros.

Afora eles, ainda são encontrados na cidade, além de outros, como poetas nela residentes, Egídio Andrade, Arlindo Costa e Silva, Manuel Filipe de Sousa, Atanásio Saltão e Felício Buarque, este, autor de Folhas Soltas (1906), primeiro livro de poemas aqui editado, além de autor - antes de vir para Uberaba, onde atuou simultaneamente como promotor e advogado, o que era possível à época - do primeiro livro em defesa da então novel República, Origens Republicanas (1894) e, ainda, de livros jurídicos, sendo presidente do Grêmio Literário Bernardo Guimarães e redator da notável “Revista de Uberaba”, editada mensalmente de março/1904 a fevereiro/1905.

 

Parnasianismo

Já nas décadas de 1910 e 1920, como ocorreu com o teatro, tanto em termos de elaboração dramatúrgica quanto de organização e atividades de grupos teatrais, desconhece-se a existência de edição de livros de poesia até a publicação, nos anos finais desse período, dos livros de poemas “Luz e Sombra”, de Pedro Conti, e “Névoa”, de Lauro Fontoura.

Nesse período predominou a influência da sonetização parnasiana de Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Ainda na década de 1920 ocorreu a divulgação do modernismo por meio de artigos dos médicos Paulo Rosa e Boulanger Pucci com base no movimento modernista eclodido em São Paulo em fevereiro de 1922.

Modernismo

A partir daí começaram a pontificar os poemas prosificados modernistas principalmente de Paulo Rosa, Quintiliano Jardim e Gabriel Toti, publicados na imprensa e nos livros “Nilza” (1935), de Ataíde Martins, e “Oração dos Humildes” (1940), de Santino Gomes de Matos.

Na década de 1940 ocorreu a estreia poética, no mesmo diapasão modernista, de Válter Campos de Carvalho nas páginas de “Lavoura e Comércio”.

Nos anos da década de 1950 foram publicados os livros “Procissão de Encontros” (1950), de Santino Gomes de Matos; “Canto Que Amanhece”(1955), de Moacir Laterza; “Páginas da Vida” (s/d), de Mauro Morais e Castro; “Fuga”, de Angélica Milena Riccioppo, ainda dentro dos amplos parâmetros modernistas; e “Fiandeira” (1951), trovas de Eva Reis.

Nas décadas de 1960 e seguintes, vários poetas de dicção modernista publicaram livros, entre eles, Geraldo Miguel (“Alvorecer Sem Paz”, s/d); Santino Gomes de Matos (“Céu Deposto” 1962); Dione de Resende (“Semente Enferma”, 1963); Justino Mendes (monsenhor José João Perna, “Lira das Selvas”, 1967); Luís Manuel da Costa Filho (“Poemas em Contrastes”,1979); Eunice Sousa Lima Pühler (“As mil e Uma Ruas Por Onde Andou Minha Infância”, 1983); Heli Maia (“Negativos”, 1987; “Cromos, 1990; Poemas de Aluvião”, 1993); Carlos Peres (“Tríplices Cordas do Destino”, 1996); e Consuelo Resende (“Em Tempos”, 1996).

No Rio de Janeiro, nesse período, o uberabense Cacaso (Antônio Carlos de Brito) lançou “A Palavra Cerzida” (1967) ainda modernista, “Mar de Mineiro” (1982, nos parâmetros do movimento marginal) e “Beijo na Boca” (1985), entre outras obras.

Nos anos 80 ainda ocorreu o lançamento póstumo de obras de Lauro Fontoura (“Ciclo do Amor e da Vida”, 1980) e de Lúcio Mendonça (“Nas Asas do Sonho” e “Evangelho de Um Triste”, 1982).

Nos anos 2000, ainda dentro das reminiscências modernistas, lançaram livros, entre outros, André Amui, André del Negri, irmã Domitila Ribeiro Borges, Hélio José Destro, Júlio Bernardo, Edmundo de Freitas, Ubirajara Franco e Rafaela Ferreira Miziara, entre outros.

 

O GRUPO DE UBERABA

 

Fora da linhagem poética até então predominante e já superando a estética modernista, constituiu-se, a partir dos fins dos anos de 1960, grupo de poetas que perfilhou tendências totalmente diversas e que vincou as décadas seguintes, imprimindo-lhes o sainete da vanguarda, do neobarroco e do construtivismo poético.

Esse grupo pontificou no “Suplemento Cultural do Correio Católico” (julho/1968 a julho/1972), na revista “Convergência”, da ALTM, de 1972 a 1976, na revista de poesia “Dimensão” (1980 a 2000), projetando-se na antologia “A Poesia em Uberaba: Do Modernismo à Vanguarda” (2003).

 

A VANGUARDA DOS ANOS 60/70

Materializou-se nos poemas de Jorge Alberto Nabut e Xico Chaves (Francisco Assis Chaves Bastos), com quebra dos padrões poéticos anteriores e criação de novas propostas poéticas, verbi-espaciais e alta dose de invenção e criatividade.

 

O NEOBARROCO DO ANOS 70

O barroco distingue-se do classicismo tanto por diferenças estilísticas, que compõem sua face visível, quanto por diversa visão e sentimento do mundo.

A poesia desenvolvida por Jorge Alberto Nabut após sua fase experimental e vanguardista inicial, apresentou etapa transicional com simultaneidade de elementos estéticos experimentais e  neobarrocos na obra-prima “Branco em Fundo Ocre: Desemboque”, incidindo em dicção verbalizada, porém, balizada por discursividade vigorosa, sofisticada e trabalhada em cortes substantivos.

 

CONSTRUTIVISMO POÉTICO 

DAS DÉCADAS DE 80 E 90

O construtivismo poético é, antes que tendência, método de apropriação e submissão da subjetividade a disciplinamento racional propiciador e estimulador do exercício da sensibilidade, manifestando-se mediante prática elaborativa e reelaborativa do fazer poético, exigindo a convocação simultânea de esforço, atenção, consciência e informação estética.

Razão e sensibilidade balizam e direcionam a ação criativa, domando e expungindo os apelos e as facilidades da subjetividade, do emocionalismo e da sentimentalidade, responsáveis por impor (e expor), em geral, idiossincrasias, devaneios inconsequentes e limitações intelectuais.

Essa tendência inaugurou-se em Uberaba com o livro “Tempesfera” (1979), de Teresinha Hueb de Meneses, ampliando-se na esteira da atualização estética procedida pela revista “Dimensão”, desaguando na produção poética de Carlos Roberto Lacerda (“Astérion”, 1983; “O Azul Menos o Nome”, 1991), Olívio Tomaim Neto, Maria Aparecida Vilhena do Reis (anterior Lisboa), Hugo Maciel de Carvalho e Guido Bilharinho (“Aspectos”, 1992; “Espécies”, 2005), permanecendo inéditos em livros os demais, mas com destacada presença nas páginas de “Dimensão” (1980-2000) e no ensaio-antologia “A Poesia em Uberaba: Do Modernismo à Vanguarda” (2003).

 

A VANGUARDA DOS ANOS 90

Num fenômeno raro na produção poética na década epigrafada, Uberaba apresentou grupo de poetas de vanguarda, com obras derivadas do pleno exercício da liberdade criadora e da inventividade artística, de autonomia de concepção, de livre articulação mental e execução de procedimentos não enquadrados nem subordináveis à fórmulas e cânones estabelecidos, na produção poética verbalizada de José Humberto Henriques, Tony Gray Cavalheiro, Juliano Balogna, Marcos Bilharinho e André Luís Fernandes da Silva, todos integrando também o livro “A Poesia em Uberaba: Do Modernismo à Vanguarda”.

 

Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/