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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

01/03/2020 06h00
Por: Redação

Deus de amor e de ternura, contemplamos este mundo tão bonito que nos deste. - Caso não haja respeito pela vida, ninguém mais terá segurança do convívio social. Todo e qualquer projeto de promoção da paz e de preservação da natureza – ecologia humana e ecologia social – são, hoje, de fundamental importância para o desenvolvimento huma-no, tanto sob o ponto de vista individual e pessoal, quanto coletivo e social. Para tanto, todos se ajudarem mutuamente, para a superação de preconceitos e discriminações de todas as ordens e formas. Sem cooperação, esperança e confiança, os projetos de salva-ção e libertação humana não caminham. Estamos sempre nos construindo, porque so-mos uma obra inacabada, porque somos um organismo vivo, nunca uma organização pronta. Tudo é assim. 

 

Desse Dom, fonte da vida, recordamos: Cuidadores, guardiões tu nos fizeste. - Sabe-se que o modelo de desenvolvimento por que optamos é excludente, marginalizante, imo-ral. Uma nação se faz ouvindo os clamores das pessoas e de cada pessoa, para ser plu-ralista e respeitadora. A cidadania exige muito mais de nós do que somente cumprir leis – o que já é muito bom! Viver em sociedade é deixar-se invadir, fazer intercâmbios, tro-cas, fazer circular serviços, muito além de interesses e intenções, tirar vantagens, usando a lei do menor esforço. Construir cidadania significa ter um compromisso histórico com todos os outros, participando ativamente das decisões e ações e políticas sociais. Quan-do se fala em compromisso histórico, porque multifacetária, plural e pluridimensional, está-se falando em participação política, econômica, social, religiosa, psíquica, ética. Enquanto não experimentarmos esse compromisso, estaremos sujeitos à manipulação e massificação e adesismo e alienação – vaquinhas de presépio ou maria vai com as ou-tras. 

 

Peregrinos, aprendemos nesta estrada o que o “bom samaritano” ensinou: ao passar por uma vida ameaçada, ele a viu, compadeceu e cuidou - Nesse aspecto, os debates, as conversas, as mesas-redondas, as palestras, as leituras, a reflexão, porque ninguém se constrói sozinho, compõem o nosso caráter e personalidade, porque decidem as nossas escolhas, sem radicalismos e cabeças duras e ideias fixas, sem narcisismos e individua-lismos. Ninguém faz nada sozinho ou poderá ser alguma coisa sozinho.  Não há profes-sores sem alunos, pais sem filhos, médicos sem pacientes, governo sem povo, patrão sem empregados. O interessante é que com tanta tecnologia da informação, muitos ainda são depreciados e alguns poucos cortejados, como na Idade Média, de senhores e escra-vos, de feudos e vassalos. 

 

Toda vida é um presente e é sagrada, seja humana, vegetal ou animal. É pra sempre ser cuidada e respeitada, desde o início até seu termo natural. - É bom nos lembrarmos de que essas figuras só mudaram de roupas, mas vassalos e escravos – sem meios e condi-ções de decidir e/ou dirigir – são encontrados ao nosso lado, porque ainda há alguns privilegiados e muitos desprezados. Infelizmente os donos do mundo e das pessoas, em muitos casos, corruptos são mais valorizados do que um trabalhador honesto, repetindo o que Aristóteles, há mais de 2500 anos, já teria dito: “no governo oligárquico, todas as pessoas humildes são servas dos ricos”. Claro, Aristóteles repetiu praticamente a mes-ma fala de Platão: “As rendas decidem a sorte de cada cidadão”. Ambos, Platão e Aris-tóteles foram discípulos de Sócrates, que nos ensinou: “Conhece-te a ti mesmo”. No fundo, continuamos os mesmos, porque, segundo o IBGE, 1% dos mais ridos detém 15% de toda a renda nacional, enquanto 50% dos mais pobres possuem 11%. Dizem que a tendência é ainda piorar mais esse quadro e as desigualdades estão ficando cada vez maiores. Quão absurda é a concentração de renda, de riquezas, de bens. Nesse senti-do, cidadania pode significar inconformismo com a situação, insurreição contra os mo-delos de desenvolvimento, insubordinação contra a ordem econômica. Outro mundo é possível. Acredito que a era da Casa Grande já passou. Muitas vezes, muitos de nós nos sentimos órfãos, abandonados à própria sorte, vivendo ao deus-dará. A solidão, apesar de tantos recursos eletrônicos disponíveis, espalha pelo país, distribuindo angústias, frustrações, desilusões, depressões e tantas outras doenças sérias e perigosas. Não que-remos assistencialismo, mas chances e oportunidades. 

 

Tua glória é o homem vivo, Deus da Vida; ver felizes os teus filhos, tuas filhas; é a justi-ça para todos, sem medida; é formarmos, no amor, bela Família. - Muitas vezes o assis-tencialismo cria um monstro ainda pior: o imobilismo e o parasitismo – pais do fatalis-mo. Pensam alguns que a vida foi sempre assim, sempre houve ricos e pobres, feitores e vassalos, senhores e escravos. Os pobres, os vassalos e os escravos modernos, sem op-ção, atribuem a culpa a Deus, porque Ele sempre dá o frio conforme o cobertor. A maio-ria das religiões faz parte desse discurso enganoso e perverso. As soluções não nascem dos outros, nem são presentes dos poderosos. Daí a importância de se organizar com criticidade e criatividade para trazer o destino nas mãos. No coração. Na cabeça. Nas pernas. Nos braços. Não nascemos nem estamos prontos, mas vamos nos construindo, com muita informação e tecnologia disponíveis. Algumas vezes na história, aqui e acolá, promovemos, via eleições, o retorno de figuras detestáveis, abomináveis, incorrigíveis, estúpidas, radicais, preconceituosas, violentas, maldosas, injustas, odiosas, vingativas. Acredito, sim, ser a intolerância o nosso maior mal atual. “Quem não está comigo, está contra mim e é preciso exterminá-lo.” O mundo, infelizmente, passa por essa ameaça – teoria do medo e do terror – obrigação de se acomodar, para não se rebelar. Assim, a corrupção, a parcialidade do judiciário, a ociosidade dos legislativos, a morte por bala perdida, as injustiças, o roubo da educação e da saúde, a ditadura do mercado, a tirania econômica, o desemprego, os alimentos não-nutritivos, os desastres ambientais, os en-venenamentos de alimentos e bebidas, o desmatamento incontrolável e sem fiscalização, a miséria e a fome, a falta de saneamento e moradias não têm fim, mas serão plataforma política das próximas eleições. 

 

Mata a vida o vírus torpe da ganância, da violência, da mentira e da ambição. Mas também o preconceito, a intolerância. O caminho é a justiça e conversão. - Resistir é preciso. Indignar-se vale a pena. Denunciar é exercício de cidadania. Isso também é uma forma de participar de um projeto político que atenda às necessidades básicas e vitais da sociedade e de cada cidadão, muito além do individualismo e/ou subjetivismo. A liber-dade e autonomia – forças capazes de decidir, de assumir-se, de conduzir-se, de trazer o destino e a história nas mãos – sufocam as características modernas impostas de escra-vidão e servidão. Os donos do mundo e das coisas, investidores e especuladores de bol-sas de valores, são anônimos, protegidos por leis. O problema é que muitos preferem a obediência cega, muda e surda ao protagonismo. Mercado – mão invisível – não tem ca-ra nem coração. Mercado é sádico – gosta de ver os sofrimentos e as dores dos outros – porque somos cheios e culpas e masoquistas – gostam de sofrer. Mercado não tem ética, porque não obedece a nenhum critério humano, social, cultural, filosófico, religioso, isso porque, para ele, não importam as pessoas, com suas necessidades e sonhos. Infelizmen-te, tudo, absolutamente tudo virou mercadoria.