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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

08/03/2020 06h00
Por: Redação

MULHERES TRABALHADEIRAS - Vivemos cheios de muitos medos. Medo de per-der emprego. Medo de não se aposentar. Medo de uma bala perdida. Medo de passar fome. Medo de não conseguir comprar um remédio ou não ter um atendimento médico de qualidade. Medo de represálias e exclusões e discriminações por causa de suas op-ções. Medo de despejo e não ter uma casa própria. Medo de epidemias e de consumir alimentos e bebidas envenenados. Medo de desastres naturais e provocados. Medo da miséria e até medo de não medo. 

 

MULHERES EMPREENDEDORAS - Vivemos, sim, a cultura do medo, porque os donos do mundo, das coisas e das pessoas sabem que o medo criar obstáculos e pro-blemas e crises de toda ordem. Este modelo de capitalismo neoliberal em que vivemos não tem espaço para gente, porque todos os espaços são ocupados por mercadorias e pelo mercado – novo deus. Mercado não tem coração nem nome e tudo virou mercado-ria: até o amor e a fé, a justiça e a política. 

 

MULHERES ESTUDANTES - Em países em que a economia é prioridade, é fim, as pessoas são submetidas a um regime de terror e medo, sem coragem de reivindicar direi-tos, de exigir respeito. O regime de medo e de terror cria a cultura da culpa. Não por acaso, quando um empregado é mandado embora do emprego, sente-se culpado: “A culpa é minha, porque eu poderia ter sido mais obediente, trabalhado mais e melhor. Meu patrão tem razão”. Essa mesma teoria se aplica no caso das mulheres – hoje é o Dia Internacional da Mulher – quando retiram uma queixa ou uma denúncia contra seu companheiro, namorado, marido: “A culpa é minha! Não fiz o que ele gostaria que eu fizesse.” 

 

MULHERES DE TODAS AS RAÇAS - Como somos masoquistas – gostar de sofrer! Medrosos e masoquistas, nos entregamos aos mandos e desmandos dos outros, sem ne-nhuma resistência e ou questionamento. E assim vamos vivendo apáticos, acomodados, cada vez mais obedientes, subservientes, submissos, mutilados, subjugados, servos, es-cravos, cegos, surdos e mudos. Os mais pobres, os menos privilegiados, os de pouca estudo, leitura e cultura, são os que mais sofrem e, muitas vezes, não têm nem consciên-cia de sua condição de oprimidos.  

 

MULHERES DE TODOS OS CREDOS - Daí muitos se anulam, se despersonificam, se destroem, se entregam e alguns até desistem de lutar, conquistar, sonhar, viver. Basta ser pobre para ser desprezado. Basta ser mulher para ser humilhada. Basta ser negro para ser discriminado. Basta não fazer as mesmas escolhas que fazemos para rejeitado e, às vezes, morto. Quanta intolerância! Acredito ser a intolerância, hoje, o maior crime, o maior pecado da humanidade, como consequência de nossa omissão. 

 

MULHERES DE TODAS AS NAÇÕES - Sem consciência dessa situação, o pobre enal-tece o rico, a mulher acaricia o companheiro, o negro idolatra o branco, o evangélico in-ferniza e endemoniza o candomblé, o machista exalta e diviniza o heterossexual, o em-prego incensa e adora o patrão, o injustiçado cultua e alimenta a culpa. Na realidade, todos nós nos rejeitamos de uma certa maneira. Existe o sádico – gosto pelo sofrimento e dor dos outros – porque existe o masoquista – gosto pelo próprio sofrimento e dor. 

 

MULHERES AMADAS - O primeiro passo de libertação é estar consciente de sua es-cravidão e servidão. Por isso, quem detém o poder, não ama e não gosta de quem ama, não tem nem gosta de quem tem fé e esperança. Resistir é preciso. Organizar-se é neces-sário, apesar de as leis, cada vez mais, punirem os sindicatos, as organizações sociais e não-governamentais, as associações de trabalhadores, de pobres, de excluídos. As mui-tas reformas propostas penalizam as pessoas para se sentirem sempre um zero à es-querda, um jeca-tatu, um joão-ninguém.

 

MULHERES ATIVAS - Acredito que as igrejas, as escolas, os meios de comunicação tenham um papel fundamental na sociedade, dando voz e vez a todos, com autonomia, cumplicidade, solidariedade. Queremos, sim, uma sociedade de irmãos, justa e plural, ética e igual, tolerante e solidária, com fome e sede de justiça. O sol nasce para todos. Moradia, alimentação, educação, saúde, saneamento, emprego são direitos de todos. Em ano de eleições, muitos candidatos se arrogarão defensores da ética e da dignidade. 

 

MULHERES INCANSÁVEIS - Ética é comprometimento, compromisso com a vida humana. Em sociedade, a cidadania é um processo, é uma construção coletiva, é uma luta determinada com a soma de esforços e muito trabalho e reflexão, é uma ação estru-tural e conjuntural, é uma conquista de todos e de cada um. É hora do resgate da digni-dade humana. É hora da esperança. Desesperar jamais! Esta é a hora de novos Beti-nhos, novos Casaldághias, novos Helderes Cãmara, novos Florestans Fernandes, novos Evaristos Arns, novos Juvenais Arduini, novos Franciscos... para o combate à fome, erradicação da miséria, promoção da vida, da justiça e da paz.

 

MULHERES LUTADORAS - Não precisamos de leis mais duras e pesadas, não preci-samos de diminuir a idade penal, não precisamos de armas e pena de morte, porque a vida humana está além das leis. “O homem não é feito para o sábado, mas o sábado pa-ra o homem! Este homem não observa o sábado!” E daí? Vale dizer, então, que os ho-mens não foram feitos para a escola, para o governo, para a religião, para as leis, para a família, para o casamento, para o emprego, para a economia, para a política, mas exa-tamente o contrário. 

 

MULHERES EMPODERADAS - Escola, leis, família, religião, casamento, emprego, economia, política são meios, instrumentos, roteiros, atalhos, mapa que podem ser alte-rados, mudados, transformados, aprimorados, melhorados para se chegar à felicidade e à liberdade, à dignidade e à paz, à convivência e à tolerância, ao companheirismo e à so-lidariedade. A história humana está em movimento, em construção. Os chamados “fun-damentalistas” modernos – também chamados radicais, extremistas, conservadores, mantedores de uma única verdade e um único sistema – não acreditam no movimento, na dinâmica, na metamorfose, na transformação, na recriação, na nova roupagem dos homens e de cada homem. 

 

MULHERES DO MUNDO INTEIRO - Somos todos caminheiros, estradeiros, romei-ros, revelando novas portas e janelas, porque vivemos também num mundo cada vez mais complexo e plural. Porque caminheiros, somos uma ameaça às certezas e ao fana-tismo e ao determinismo. Porque estradeiros, buscamos a todo momento a libertação e salvação. Porque romeiros, buscamos a alegria e a utopia.