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Entre o capital e o coração: amor e descartabilidade na Era Moderna

Reflexões sobre a efemeridade das relações na era do Capitalismo Tardio

19/06/2024 às 06h30
Por: Júlia Caixeta
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Entre o capital e o coração: amor e descartabilidade na Era Moderna

Há de se procurar o amor nos lugares improváveis, naqueles que pensamos que existem apenas por existir e onde nada de novo pode surgir. Lá, debaixo das pedras, junto das minhocas e da terra molhada, eu tenho certeza, existe amor também. A matéria densa dali é o agrupamento do amor da terra e da água; a pedra é o agrupamento amoroso dos minerais; as minhocas, bom… provavelmente sejam um agrupamento amoroso de aminoácidos e gosmas.

Ele também existe nos pontos de tricô fabricados pelas mãos sofridas daqueles que já muito viram e pouco ganharam. Nos pratos frescos, nas bebidas quentes e na escuta. Há uma certeza em meu coração que diz que ele existe nos fios de cabelo do seu ser preferido; até as caspas podem ser amor. Até a unha encravada, que expõe o pus amarelado e insiste em aparecer toda vez que é cutucada. Há amor nas miúdas folhas de suculentas e das dormideiras, esses seres gentis que abrigam a delicadeza e a sinceridade da natureza.

Há de se procurar o amor nos olhos daqueles que nos convencem de que viver pode ser menos do que um fardo. Procuremos em pontas de narizes que se juntam e intermediam o olhar dos amantes. Procuremos no suor de mãos que aparece sem pestanejar junto com o coração palpitante. Na intenção de fazer-se feliz ao lado do outro que se dispõe a ser feliz ao seu lado também, pois há amor na disposição, na escolha. Há de se procurar o amor nas incertezas e no medo, ainda que pareça tolo, é apesar do medo que é possível encontrá-lo. Ainda que esteja escondido em você.

Este texto foi escrito há dois anos, mas ainda reverbera com o que discute-se abrangentemente por aí, seja nas mesas de bares ou redes sociaiis. Como o amor deixou de ser algo praticamente mágico, uma força oculta, para se tornar tão racionalizado? Uma semana depois do Dia dos Namorados no Brasil, esta pergunta reverbera no coração e na mente. Em tempos modernos, o amor, que Kierkegaard descreveu como "o bem supremo e a maior felicidade", parece ter sido despojado de sua essência mística e transformado em algo quase calculável.

Atualmente, por conta do capitalismo tardio, as relações amorosas estão cada vez mais sendo vistas como efêmeras e descartáveis, conforme explora Liv Strömquist em "A Rosa Mais Vermelha Desabrocha". No turbilhão de uma sociedade que valoriza a produtividade e o consumo rápido, o amor, em sua profundidade e complexidade, muitas vezes é relegado a um segundo plano. As conexões se tornam transações, e a efemeridade parece dominar o cenário das relações humanas. A racionalização do amor é um reflexo de uma sociedade que valoriza o tangível e o imediato. Em meio ao turbilhão de responsabilidades e expectativas, o amor parece perder seu caráter enigmático e se moldar às demandas de um mundo que prioriza o lucro e a eficiência. O amor, que deveria ser um porto seguro de simplicidade e profundidade, é agora cercado de cálculos e medos, restrito por contratos sociais e exigências pessoais.

Entretanto, mesmo nessa era de racionalidade e descartabilidade, o amor ainda existe nas pequenas coisas, nas sutilezas da vida cotidiana. Ele está nas pequenas gentilezas, nos detalhes que passam despercebidos aos olhos desatentos. Ainda há amor nos gestos simples, na escuta atenta, na disposição de fazer feliz quem escolhemos para estar ao nosso lado. O amor pode estar escondido, relegado e visto pode até ser visto como fraqueza, mas continua sendo a força que nos move e nos transforma, mesmo quando sequer percebemos.

E é por conta disso que não devemos fugir do amor, por mais frágil ou complicado que ele possa parecer em meio ao turbilhão de uma vida que esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. Como disse Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo / O que ela quer da gente é coragem". Coragem para enfrentar os desafios, para abraçar a incerteza e encontrar o amor nas minúcias do cotidiano. O amor é essa coragem silenciosa que, mesmo em meio à dureza da vida, nos impulsiona a buscar o bem supremo e a maior felicidade, que Kierkegaard sinalizou em sua obra. 

 

 

Nathalí Cristina da Silva Martins Pereira

Estudante de Psicologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)

 

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Helena MarquesHá 1 mês GuaxupéLindo!!! Me emocionei lendo e compartilho do mesmo ponto de vista
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