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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

15/03/2020 06h00
Por: Redação

Sonhar mais um sonho impossível – Quando se é ainda adolescente o nosso desejo é salvar o mundo. Os sonhos não acabam, mas esse desejo vai se tornando impossível na mesma medida em que se cresce, dadas as aflições, as questões internas e externas. Os franceses, jovens e adolescentes de maio de 1968, picharam praticamente todos os mu-ros da cidade de Paris com os dizeres: “Sejamos realistas, exijamos o impossível! Esta noite a imaginação tomou o poder!”  

 

Lutar quando é fácil ceder – A vida em sociedade, queiramos ou não, será sempre plu-ralista, encarnada no tempo e na história, no espaço e na geografia. Por isso, nada é de-finitivo e será sempre uma ameaça a qualquer sistema fechado. Quem é adepto de um sistema fechado busca sempre segurança e certezas, quase que absolutas – a que se dá o nome de fundamentalismo. 

 

Vencer o inimigo invencível – Somos caminheiros, estradeiros, porque aceitamos e que-remos a dinâmica da própria vida. Os fundamentalistas, radicais e preconceituosos, te-mem a caminhada, a estrada, o horizonte, porque também acreditam muito pouco em si mesmos, não assumem nenhum risco, principalmente de suas certezas e concepções e conceitos e ideias. Não há caminhos, constroem-se caminhos, enquanto se caminha. Não podemos nem queremos ser seguidores, cegos e surdos e mudos, de uma doutrina, de um partido, de uma ideologia, representadas por ídolos e heróis, construídos por nós mesmos.  

 

Negar quando a regra é vender – Vivemos, sim, ameaçados, no meio de fogo cruzado – o que não nos impede de criticar, enfrentar os desafios, questionar tudo e todos. As re-des sociais – como são intolerantes – funcionam mais como aquelas fogueiras da Idade Média, agredindo, matando aos que não estão de acordo com suas ideias e crenças. Daí a agressividade, a violência, a morte anunciada. 

 

Sofrer a tortura implacável – Claro, tudo começa na consciência e no coração de cada um que se expande e toca o outro – ir além de si mesmo. Daí nasce o compromisso e cumplicidade com o outro – intersubjetividade. É importante cada um ter consciência do que quer, mas, talvez, seja mais importante ter consciência do que o outro quer. Muitos – felizmente – abrem mão de si mesmos para estar com o outro, para o outro, pelo ou-tro. Observe-se o exemplo de muitos pais e mães.

 

Romper a incabível prisão – Nas primeiras lições de Ética nos ensinam a seguinte fór-mula de comportamento: eu QUERO – eu POSSO – eu DEVO. Tudo nasce de um dese-jo, passando pelos aspectos legais, até se chegar à realização, ao dever. Nem sempre o que quero e posso, deve ser feito. Nem sempre o que devo e posso, é querido, é deseja-do. O critério para esse comportamento é o outro, porque não existe ética, sem a exis-tência do outro.

 

Voar num limite improvável – Vivemos numa sociedade tão individualista e egoísta, que sentimos o outro sempre como uma ameaça, um risco de ser roubado, assaltado ou es-tuprado. Nossas casas são verdadeiras fortalezas – o que nos impede o contato, a ami-zade, a solidariedade, o companheirismo, o amor do outro, dos muitos outros. Por isso, estamos cada vez mais solitários, mais doentes, mais frustrados, mais deprimidos, mais angustiados. 

 

Tocar o inacessível chão – Fechados em nós mesmo, como caracóis, perdemos momen-tos de aprendizagem, de acolhimento, de fala e de escuta, de olhar e perceber e sentir, de braços e abraços, de ser e ser mais e melhor – marcas na vida dos outros. O interessante é que as pessoas, em geral, querem e exigem muito pouco de nós. Os idosos, mais do que qualquer outra coisa, querem somente respeito e tempo para uma boa conversa. 

 

É minha lei, é minha questão: virar este mundo, cravar este chão – Poucos muitos pou-cos, mesmo numa mesa de boteco – os celulares tomem conta de seus frequentadores – estão dispostos a ouvir as queixas e as lamúrias, as neuroses e as doenças, as crises e os problemas, as lamentações e as decepções dos outros. Sem saída, muitos buscam psicó-logos, psicanalistas, psiquiatras, médicos, cuidadores, só porque querem atenção e um pouco de carinho. As cidades estão sendo invadidas por farmácias – não é possível tan-ta gente doente! 

 

Não me importa saber se é terrível demais – Todos estamos lutando pela sobrevivência e não temos tempo para o outro. Tudo virou miojo – só três minutos. Quanta correria! Quanto atropelo! Daí o vazio – ausência de sentido e razões para amar, se entregar, conviver, viver. Estamos perdendo o encanto pela vida, porque também estamos per-dendo o sentido da alteridade – sem o outro nada somos. Ninguém é feliz sozinho. Na vida, acima de qualquer coisa, a prioridade é o outro.  

 

Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz – Sabe-se que toda pessoa é ca-paz de autorregular-se, autocontrolar-se, modificar um conjunto de valores e princípios – o que não significa isolamento e autossuficiência. A empatia e a sinergia – troca de ex-periências e vivências – são fundamentais para a vida em sociedade. Somos nós mesmos na medida em que desejamos que os outros sejam. Por isso, sou para mim e principal-mente sou para os outros. 

 

E amanhã se este chão que eu beijei for meu leito e perdão – Nada existe por acaso. Tudo foi construído – que bom! Sendo assim, muitas coisas podem ser mudadas, trans-formadas. Claro, os problemas pessoais não podem ser tratados isoladamente das con-dições sociais. Vale dizer, então, seria quase impossível ao médico curar uma doença de uma pessoa que mal se alimenta, que não tem água e esgoto tratados, que não tem onde encostar a cabeça, sem emprego e sem renda. 

 

Vou saber que valeu delirar e morrer de paixão – Perder a esperança jamais! A ignorân-cia parece invencível. As enchentes parecem invencíveis. A diarreia parece invencível. A miséria e a fome parecem invencíveis. Claro, tudo isso parece mesmo invencível porque não temos consciência social e política, não gostamos de abrir caminhos e horizontes. Cada um por si. 

 

E assim, seja lá como for vai ter fim a infinita aflição – Ninguém detém sozinho a solu-ção de nossos problemas, porque também não existe salvador da pátria, ou tem uma varinha de condão. Tudo tem de ser construído por homens e mulheres livres, em cima de uma rocha sólida, nada aos trancos e barrancos.  

 

E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão – Outro mundo é possível, por-que também outra humanidade, com novos homens e novas mulheres, livres e libertos, é possível.