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André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

15/03/2020 06h00
Por: Redação

COMER FORA EM UBERABA - II

A partir da metade dos anos 1930, a recuperação da economia brasileira após anos de instabilidade coincidiu com uma retomada gradual nos negócios do gado zebu,  beneficiando o desenvolvimento de Uberaba. Uma das primeiras consequências da retomada foi o surgimento de novas confeitarias e restaurantes . Nessa época, nas capitais brasileiras, o hábito de “comer fora de casa” começava a ganhar corpo. Não apenas como alternativa para um almoço mais perto do trabalho, mas também como programa social e familiar. Em Uberaba, comer em família ou com amigos ainda era um hábito essencialmente doméstico – mas isso começaria a mudar.

Em 1935, temos notícia da inauguração do Restaurante, Bar e Sorveteria Trianon, na praça Rui Barbosa nº 17. Propriedade de Orlando Marinho e André Jorge, apresentava-se como “a casa da elegância de Uberaba” e oferecia, além de refeições e lanches no local, serviço de “pensão a domicílio”, as populares “marmitas”. Três anos depois, Marinho havia deixado a sociedade. O restaurante foi reformado e passou a dispor do “que de mais moderno e perfeito há no gênero de refrigeração e fabricação de refrescos e sorvetes”.  Na vizinha rua Artur Machado, havia também o Restaurante Damiani, cujos anúncios ressaltavam seu ambiente “exclusivamente familiar”. Em 1939, mudou de dono e foi assumido por Sílvio Carreto. Oferecia pratos avulsos diversificados, entre eles “peixe fresco sempre da melhor qualidade e por preço razoável”.

O início da década de 1940 assistiu ao surgimento de novos restaurantes, mais caros e sofisticados, um reflexo de um novo apogeu da pecuária do zebu. Destaca-se nesse período o “Restaurante da Rural”, montado pelo italiano Menotti Marcaccini no andar térreo do novo prédio construído na Rua Manoel Borges para sediar a Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (antecessora da atual ABCZ). No primeiro semestre de 1941, Orlando Rodrigues da Cunha inaugurou o Grande Hotel, na Avenida Leopoldino de Oliveira, que deu a Uberaba seu primeiro restaurante de alta classe. Funcionava no primeiro andar, acima da entrada do Cine Metrópole, e era aberto aos hóspedes e ao público. Nos jantares havia orquestra e sofisticado serviço de cozinha internacional “a la carte”.

Na mesma época, foi inaugurada na praça Rui Barbosa a nova sede do Jockey Clube, que contava com um restaurante para os sócios e o público. Embora tenha funcionado por décadas, esse local sempre teve uma vida conturbada, trocando várias vezes de nome e de proprietário. Abriu as portas como “Bar e Restaurante Brasserie”, a cargo de André Jorge, antigo sócio do Trianon. Em  meados de 1943 passou às mãos de Pedro Juliano e filhos, que investiram em uma grande reforma. Segundo o jornal Lavoura e Comércio, “o salão principal, onde foram colocadas mais de 50 mesas, apresenta um aspecto deslumbrante, não somente por sua feérica iluminação, como também pelo gosto demonstrado na sua pintura”. Nos estoques, havia bebidas estrangeiras finas e ingredientes das melhores procedências.

Aparentemente, o investimento não deu os resultados esperados: em novembro do mesmo ano o clube já abria nova concorrência pública em busca de interessados em explorar o local. O processo se arrastou por meses e só em 1944 o restaurante foi reaberto. Dessa vez, a cargo de Hyrozé Rodrigues da Cunha, que promoveu um concurso para a escolha do novo nome para o estabelecimento. Além disso, buscou em Belo Horizonte o “mestre-cuca” João Evangelista Gomes, cozinheiro que já comandara as panelas do Minas Tênis Clube.

Hyrozé já tinha experiência na área: havia sido sócio de José Ribamar Ramos na abertura de um outro restaurante que se destacava na cidade. Funcionando no térreo do prédio da Associação Comercial – no que era então o trecho mais sofisticado da Av. Leopoldino de Oliveira – o “Restaurante Ribamar” se destacava pela variedade de pratos oferecido e era considerado por muitos como a melhor cozinha da cidade. Diversos tipos de massas, frios peixes, frangos e costeletas eram acompanhados pelo “mais fino estoque de bebidas nacionais e estrangeiras”.  Aos finais de semana, oferecia vatapá à baiana. O local contava ainda com bombonière e charutaria. Anos mais tarde, deu lugar ao “Bar Tip-Top, o Rei do Filé”.

Infelizmente, o “chef” belorizontino não garantiu o sucesso do Restaurante de Jockey. A derrocada dos preços Zebu a partir de 1945 atingiu os negócios e, em abril de 1946, Hyrozé  passou o estabelecimento para Sylvio Cunha Campos. Poucos meses antes, Menotti também havia vendido a Antônio Camilo Cruz o Restaurante da Rural. Era preciso se adequar aos novos tempos, como veremos na próxima coluna.