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Vinhos & tal

Carlos Alberto Pereira

Carlos Alberto Pereira

Carlos Alberto PereiraEnófilo, Jornalista, Tecnólogo em Turismo e Hotelaria. Contato: [email protected] / 98412-6446

20/03/2020 06h00
Por: Redação

FILOXERA

Em tempos sombrios   de crise mundial, por conta da contaminação do vírus COVID – 19 (Coronavírus), vou dedicar a nossa página de hoje à um tema, que também, mostra semelhanças com que passamos hoje, mas que ao invés de atacar o homem diretamente, foi a videira e suas uvas. Trata-se de um surto de contaminação em larga escala mundial, que trouxe sérios prejuízos econômicos para a cadeia do vinho, no século 19. Vou falar de uma praga de nome Filoxera (Phylloxera Vastatrix), que praticamente dizimou os vinhedos da Europa e boa parte do mundo vitivinícola. Como ainda não tinha falado por aqui deste assunto, aproveito o momento de grande apreensão e de reflexão por que passamos, para lembrar que o homem não é o senhor do planeta, apenas um permissionário, e que se não cuidar com respeito, responsabilidade e consciência desta terra que habitamos, fatalmente,  iremos  pagar (já estamos) por nossos equívocos da forma mais dura! A sabedoria da vida está no equilíbrio e na responsabilidade, pois a terra é generosa e nos dá tudo que precisamos.

Assim sendo e em tempos de “férias” forçadas e clausura responsável, vamos abrir uma boa garrafa de vinhos e aproveitar para pensarmos em novos projetos, refletir sobre nossos atos e colocar em dia importantes tarefas que relegamos por falta de tempo ou outras desculpas que criamos. Mas acima de tudo, estejamos certos, que são das maiores dores que saem as maiores lições e que depois da tempestade, vem sempre a bonança! Tim, tim e muito juízo nesta hora!

 

 O que é filoxera

A filoxera é um piolho microscópico ou pulgão (Phylloxera vastatrix) cujo único hospedeiro conhecido é a videira, onde vive e come suas raízes.  Esta praga é encontrada nas formas “gallicola”, “radicicola” e “alada e sexada”. O pulgão destrói as folhas da planta (que ficam amareladas prematuramente e caem), diminuindo sua capacidade de fazer fotossíntese. Mas o que geralmente a mata é o ataque do inseto às suas raízes, que são sugadas pelo pulgão. Dessa forma, as feridas abertas sofrem a ação de fungos que geram o apodrecimento.

 

Como se propaga

O poder de dispersão da praga é imenso, estes insetos podem ser transportados de um vinhedo para outro por meio de qualquer material botânico (como podas, mudas, rizomas, folhas e brotos), terra, maquinário (equipamentos e veículos), cachos de uvas, produtos vinícolas (mosto e suco de uva), e até mesmo por pessoas e roupas.

 

Sua História

Esta praga surgiu nos Estados Unidos e a causa de sua propagação tem, pelo menos, duas versões. A primeira consta que pode ter se espalhado pelas ações não intencionais do “Conde” Agoston Haraszthy, que fundou a vinícola mais antiga de Sonoma, a Buena Vista Winery, em 1857, no país. Em 1861, Haraszthy saiu dos Estados Unidos e viajou para a Europa percorrendo as vinhas da França, Alemanha e Suíça para coletar amostras. Ele trouxe estacas de 350 tipos diferentes de uvas e iniciou um vinhedo experimental em Sonoma.  A segunda conta a história que um certo Monsieur Borty que recebeu vinhas americanas, vindas Nova York, e cheio de boas intenções plantou-as em seu quintal, no Languedoc, sul da França, em 1862. Este marchant de vinhos notou que as demais vinhas de sua plantação de vitis vinifera começaram a morrer. Cerca de cinco anos depois, todo o sul da França estava devastado. O certo é que as consequências dos efeitos desta praga foram arrasadoras fechando vinícolas por toda a Europa onde muitas delas destruíram e queimaram os vinhedos antigos de suas famílias, numa tentativa desesperada de impedir a propagação de doenças.  reduzindo a produção de vinho francês pela metade. No início da década de 1900, a filoxera tinha um custo além do imaginável: mais de 70% das videiras na França estavam mortas e os meios de subsistência de milhares de famílias estavam arruinados. Em Portugal a região do Douro foi a primeira a ser infectada pela Filoxera, em 1865, depois foi para Espanha e outros países europeus. Em 1875, a filoxera já estava na Austrália, em 1880 na África do Sul, em 1885 chegou ao norte da África, na Argélia e de lá atacaria vinhedos na Tunísia e Marrocos. O século XIX chegou ao fim com o mundo vitivinícola destruído e a produção mundial totalmente comprometida. Assim como na França. muitos vinhedos foram extintos, muitas castas desapareceram dando lugar a outras. A geografia do vinho estava mudada para sempre.

 

Os prejuízos

O mercado de vinho europeu e mundial foi drasticamente afetado, pois um pé de videira demora no mínimo cinco anos para estar maduro o suficiente para gerar uvas de qualidade e concentração adequadas. E mais de cinco anos para produzir vinhos superiores. Após a colheita, ainda são necessários mais alguns anos de processo de envelhecimento e guarda até os novos vinhos chegarem ao consumidor final. O que significa que muitas vinícolas, além das perdas financeiras e gastos para a recuperação, ainda ficaram improdutivas por anos, causando a falência de muitos produtores. Até hoje é possível encontrar vinhedos abandonados dessa época espalhados por todo o continente. Foram cerca de 40 anos para se chegar à normalidade que temos hoje.

 

A filoxera e o Chile

Na América do Sul, região considerada como Novo Mundo, na produção de vinhos, a filoxera não teve vez no Chile e este foi um dos poucos países produtores de vinho do mundo que se mantiveram completamente intocados pela praga. A explicação é que por ser um país isolado entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, ao leste e oeste, e pelo Deserto do Atacama e Antártica, ao norte e ao sul, impediu a entrada da praga.

E graças a este isolamento, que surgiu a história da uva Carménère. Como muitos vinhedos dizimados não chegaram a ser replantados na europa, algumas espécies de uva são consideradas extintas pela filoxera. E a Carménère era uma delas. Até que, surpreendentemente, alguns pés da casta são encontrados misturados à Merlot em vinhedos do Chile, onde a praga nunca chegou. A uva renasceu na indústria do vinho, agora sendo considerada uma cepa típica chilena.

 

Como foi a “destruição” da filoxera 

Embora esta praga não tenha cura e continua sendo uma ameaça, a solução foi encontrada no mesmo local de onde a praga veio: os Estados Unidos! Por volta de 1878, quinze anos após o início da praga e após a perda de 40% das videiras na Europa, iniciaram-se os experimentos com enxertos de rizomas norte-americanos em vinhas francesas. Como o inseto da filoxera era natural dessa parte do mundo, as vinhas indígenas americanas eram naturalmente resistentes a eles O americano, Charles Valentine Riley,foi quem  descobriu  esta solução (enxerto de vitis vinifera). Por esse motivo, desde o final do século XIX, espécies americanas (videiras americanas) têm sido utilizadas como porta-enxertos para Vitis vinifera.

 

Fonte: Wine Folly, Revista Adega e Grand Cru