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Carlinhos Sete

Escritor e cronista

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20/03/2020 06h00
Por: Redação

Pare o mundo que eu quero descer

 

O mundo se esqueceu de tudo. Não se fala mais na fumaça que percorreu continentes oriunda do incêndio na Austrália; do míssil que matou os tripulantes de um voo comercial decorrente de uma briga entre Irã e EUA; das chuvas que inundaram Belo Horizonte ou da cerveja contaminada por lá; do Brexit; das propinas e maracutaias envolvendo a classe política brasileira; e por aí vai... Só se fala na pandemia do COVID-19, popularmente tratado por coronavírus, que surgiu na cidade de Wuhan, província da China, e que, ao que tudo indica, originário do hábito esquisito que eles têm por lá de comer tudo que se move, incluindo barata, escorpião, lacraia, morcegos, cobras e lagartos. Bem sabemos que o ser humano toma a maioria de suas ações baseadas em medo, ansiedade ou ganância. E é isso que estamos vendo agora. Aliás, um misto dos três.

Tá certo que é comum sentir medo e não saber como agir diante das incertezas atuais, além disso, pouco se sabe sobre o quão devastador será o impacto do tal corona nas economias mundiais nos próximos meses. Mas, enquanto a manada incauta se desespera atrás de álcool em gel, inflacionando o produto, os secretários estaduais enviaram um ofício ao ministro Paulo Guedes pedindo R$ 14 bilhões para “enfrentar” o coronavírus. Isso além dos R$ 5 bilhões já requeridos a serem distribuídos por critério populacional, para, segundo eles, reforçar as ações na área de saúde. A pergunta que não quer calar é: Quem irá cobrir o rombo depois e de que forma? Tenha certeza de que haverá muitos nadando de braçadas esperando logo a próxima epidemia para encher os bolsos sem ter que dar satisfação como agora. A culpa é de quem? Reclamar pra quem?

A economia desacelera a ponto de quase parar e a maioria das autoridades municipais, estaduais e federais não sabe como lidar com essa situação, muitas vezes enfiando os pés pelas mãos e lançando notas oficiais se dizendo responsáveis quando na realidade não o são. Por outro lado, há muito cidadão “de bem” que torce para ter uma desculpa para não trabalhar, e, ao invés de tratar o caso com seriedade, vai fazer churrascos, jogar futebol, ir ao shopping e até praias. Tenho pra mim que – embora haja que jure de pés juntos que seja – não é o início do fim do mundo, mas um momento de caos, de crise acentuada pela incompetência dos gestores que não pensam na economia – mesmo que digam que estão prezando pelo bem-estar social – e de Fake News espalhadas nas mídias sociais, especialmente por quem se beneficia da situação. Não coloque pilha no que já está pilhado. Cuide do seu emocional, fale uma palavra de otimismo e não espalhe negatividade. Em 1976, Silvio Brito lançou a canção “Pare o mundo que eu quero descer”. Pois é. O mundo parou, mas nós não temos para onde descer. •

 

Carlinhos Sete - Escritor e cronista. Também faz o quadro “Aí tem” na Rádio Sete Colinas. Seu novo romance, “Desamores”, já está disponível nas melhores livrarias da cidade.