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Arahilda Gomes Alves

Cadeira 33 ALTM; membro Academia Poetas Portugueses e Academia Letras e Artes Portugal

Reflexões

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22/03/2020 06h00
Por: Redação

Quarentena mágica

Muito já se escreveu e comenta-se intensamente sobre o vírus mortal que avassala impiedosamente, nosso planeta. Fakes, em meio às notícias de aproveitadores, na venda de gel abençoado, tomam de assalto, os incautos.

Mas, a quarentena nos obriga a relaxar em casa, na convivência benigna com familiares. E, se atacamos o excesso de diálogos pelo whatsapp, abandonando o hábito da conversa sonora, onde a voz ecoa enfeitando os lares, ela aparece, bravamente, na escrita dos apês da vida, vingando-se das vezes em que criticávamos sua abusiva conversação. Mas, não nos faz desagravos como certas correntes humanas que fazem da inveja, a injuria de seus fracassos. Seguem a máxima de semear o mal com o bem.

Abro um dos meus “correspondentes virtuais” e deparo com programação imperdível para curtir quarentena: o Metropolitan de Nova York antecipa temporada operística com enredos os mais procurados nas salas-concerto: Carmem, de Bizet, Traviata, Rigoleto e Trovador, de Verdi e La Bohème de Puccini.Com cantores de uma plêiade no universo lírico aguçando a curiosidade em novas performances.  A um tempo em que as gravações nos chegavam em long –play com vozes de timbres personalíssimos como Caruso, Mario Lanza, Tito Scchipa, Beniamino Gilli, Victoria de los Angeles, Roberta Peether, Johan Sutherland e outros que me acompanharam nas minhas buscas fonográficas.

Na quarta passada, anunciava-se a ópera de Verdi –O trovador, com Anna Netrebko e Dmitry Hvorostovsky, ambos, cantores russos, no apogeu da exuberância vocal. Verdi, cognominado o Cantor do povo, pela sensibilidade das linhas melódicas inseridas em suas composições, levava o povo a assoviar de primeira audição.

Netrebko incorporou uma Leonora de grande versatilidade vocal ao lado do baixo barítono de ampla cabeleira branca, aos quase cinquenta anos Dmitry Hvorostovsky.

A grande diva, que sempre julgara perfeita nos recitais, mais que nas óperas, surpreende-nos com sua versatilidade. Quanto a Dmitry, falecido a 22 de novembro de 2017 apresentou um Conde de Luna apaixonado nas árias e encenação percebendo-se as lágrimas presas aos olhos piscantes em semblante divinal, ao cantar seu amor por Leonora, numa das árias mais lindas do repertório italiano - para barítono: Il balen de suo sorriso.  A história narra o amor de dois irmãos, um criado na opulência de um castelo e o outro, entre ciganos. A mãe adotiva conta-lhe da mãe queimada numa fogueira. E procura vingar-se queimando um dos filhos do velho De Luna roubando-lhe o filho Manrico. A história se repete, quando o rival percebendo ser o amor de Leonora, que se aconchega nos braços do Trovador. Outra ária de intenso lirismo é cantada por Manrico-Ah, si, ben mio... Di quella pira é outro solo para tenor com um do agudo no último ato anunciando o crepitar da fogueira. Leonora implora a salvação do Trovador casando-se com o Conde, sem perceber que ela já tomara o veneno guardado em um anel. O conde condena Manrico à fogueira quando a cigana Azucena grita estar vingada exclamando ser ele, suo fratello (seu irmão)

As óperas sempre trazem enredos dramáticos. Algumas, veristas como a Cavalleria rusticana, de Mascagni, sempre apresentada com Il Pagliacci, de Leoncavallo, em contraposição às operetas, de enredo leve e jocoso.

 

Arahilda Gomes Alves - Cadeira 33 ALTM; membro Academia Poetas Portugueses e Academia Letras e Artes Portugal; cônsul Poetas Del Mundo; Academia Internacional do Brasil; diretora cofundadora Fórum Articulistas de Uberaba e Região. Partícipe Rede Sem Fronteiras; sócia Poemas à Flor da Pele. Escreve crônicas no JU desde 1993.