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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

22/03/2020 06h00
Por: Redação

Hoje, trechos da Música de Renato Teixeira: Irmãos da Lua

 

Somos todos irmãos da lua - O sol nasce para todos. As pessoas não são boas, por exemplo, porque acreditam em Deus, ou porque têm um emprego fixo, ou porque são casadas dentro das normas estabelecidas, ou porque têm diplomas de mestrado e douto-rado, ou porque são brancos, ou porque são ricos. O bem está acima dessas possíveis instituições e organizações humanas. Existe vida pulsante e pujante fora da ordem hu-mana. 

 

Moramos na mesma rua - A verdade é que ninguém é perfeito. Erramos e erramos mui-to. Que bom! Se não errássemos não seríamos humanos. O amor, a justiça, o trabalho, a fé, a sabedoria – forças, energias, potências, fins, possibilidades – são projetos, todos eles meio anárquicos e caóticos, porque dinâmicos, mutáveis e mutantes. 

 

Bebemos no mesmo copo a mesma bebida crua - Assim, para fugir do caos, os homens criaram o casamento, a família, a divisão de bens – meios – na tentativa de se organizar o amor; criaram leis, cadeias, punições, castigos – meios – na esperança de concretizar a justiça; criaram as empresas, salários, férias, décimo terceiro, empregos – meios – na expectativa de formalizar o trabalho; criaram religiões, padres, pastores, noções de céu e inferno, normas e bulas e dogmas – meios – na germinação da fé e da transcendência; criaram escolas, professores, aprovação, reprovação, provas, exames – meios – na efe-tivação da ciência e da sabedoria. 

 

O caminho já não é novo, por ele é que passa o povo - Importam os fins; os meios são acidentais e culturais, encarnados na história e no tempo, na geografia e no espaço. Por isso, o que bom para os casados, nem sempre é bom para os solteiros, homossexuais, transexuais, lésbicas, amigados, amasiados, amantes. O que não se admite é a arrogân-cia e o fundamentalismo, a prepotência e o radicalismo, a intolerância e a discriminação dos casados, dos legisladores, dos religiosos, dos trabalhadores, dos intelectuais – que acreditam que vivem em situações de normalidade absoluta. 

 

Farinha do mesmo saco - “Quem não está comigo, está contra mim” – dizem os que se julgam perfeitos e deuses. “O sábado foi feito para os homens e não os homens para os sábados” – dizem os que se entendem pecadores e lutam por um mundo de paz e alegria. 

 

Galinha do mesmo ovo, mas nada é melhor que a água - Vivemos, sim, numa crise de valores – a verticalização radical das organizações e das instituições. Claro, não nos compete aprovar ou reprovar nenhum comportamento e atitude e escolha de ninguém, mas vivermos como irmãos uns dos outros, desfrutando das belezas e dos encantos da vida. 

 

A terra é a mãe de todos. O ar é que toca o homem - Somos todos estradeiros, caminhei-ros, companheiros de viagem, capazes de superar os limites interpessoais. Quem está sadio não precisa de remédios e medicamentos. Quem está bem nutrido não precisa de alimentos. Quem já tem casa não precisa de outra moradia. Quem já tem curso superior não precisa de nenhum financiamento estudantil. As políticas públicas têm de ser pau-tadas para os carentes, para quem não tem nada, muitas vezes até sem esperança. Apon-tam-se caminhos para quem se julga perdido. 

 

E o homem maneja o fogo. E o homem possui a fala - A utopia existe e tem de ser par-tilhada e compartilhada, porque também não existem modelos de perfeição, de verdade, de bondade e de beleza. A salvação e a libertação, a alegria e os encantos da vida são para todos e para cada um. Estamos passando por um penoso e doloroso processo de discernimento e reflexão, de projetos de convivência e sobrevivência. Com as redes soci-ais, deixamos para trás muitas referências: de quem você é filho? Onde nasceu e mora? Quem você namora? Onde trabalha? Onde estuda? Qual sua religião? O que quer da vi-da? Em quem votou? 

 

E a fala edifica o canto. E o canto repousa a alma - As redes sociais, infelizmente, não têm compromisso com a verdade e compromisso, porque somos atualmente imediatis-tas, egoístas, gananciosos, egocêntricos, enganadores, aproveitadores e, claro, mentiro-sos. A fama, o sucesso, o poder, o hedonismo, o sadismo, o narcisismo, o consumo, os bens nos subiram à cabeça. As consequências disso nos são terríveis: o bem-comum vi-rou bem-privado, tudo e todos viraram mercadoria. 

 

Da alma depende a calma. E a calma é irmã do simples - Daí a corrupção, a propina, o caixa-dois, as falcatruas, as sonegações, as lavagens de dinheiro, as vantagens indevidas, as apropriações indébitas, as fraudes. Quanto levo? Quem dá mais? A economia que sempre foi um meio passou a ser um fim, subjugando nações e povos. Não por acaso, os economistas desmoralizam a política – a arte e a ciência de se viver na polis – e os políticos. As pessoas são mais importantes do que o Estado e os poderes constituídos. O governo existe para prestar serviços de saúde, de educação, de previdência, de sanea-mento, de segurança, de habitação, de alimentação, sem privilégios e com igualdade. In-felizmente, ainda muitos políticos querem que o Estado e o governo se submetam a eles, aos seus desejos de riquezas e prosperidade, porque não aceitam a autoridade do pró-prio Estado e governo. 

 

E o simples resolve tudo - Nesse sentido, o governo não tem nem cara nem coração. Ca-da vez mais estamos nos sentindo sozinhos, isolados, solitários, jogados à própria sorte. E ainda inventaram uma tal de meritocracia – a primeira e a maior de todas as discrimi-nações. Sem escola, sem hospital, sem saneamento, sem apoio, sem segurança, sem teto, sem nada, somos nada e não temos condição de querer sem alguma coisa. Solidariedade e sinergia não são mais razões de se estar em sociedade. “Sou para mim e sou para os outros” – máxima da cumplicidade e companheirismo. Confiança e reciprocidade são coisas do passado. 

 

Mas tudo na vida às vezes consiste em não se ter nada - As cidades como se apresentam são feitas para automóveis e comércio, indústrias e bancos, separando indivíduos, que são jogados para os morros e periferias, encostas e aterros, correndo todos os riscos de, por exemplo, um desastre natural. As autoridades, irresponsáveis e inconsequentes, fa-zem questão de culpar a natureza, que também tenta se organizar e ou refazer. Para as autoridades, as pessoas é que atrapalham o desenvolvimento e o progresso das cidades, do país. Não por acaso, um presidente disse: “prefiro o cheiro de cavalos e de animais ao cheiro de gente!”