Mebox
Covid-19

Estudo da UFMG prevê esgotamentos de leitos e respiradores em abril

Para evitar o sobrecarregamento, algumas soluções são apontadas, como a construção de hospitais de campanha

03/04/2020 21h00
Por: Redação
Fonte: O Tempo
Expominas vai receber quase 1.000 leitos para atender pacientes do Covid-19 - Foto: Alex de Jesus
Expominas vai receber quase 1.000 leitos para atender pacientes do Covid-19 - Foto: Alex de Jesus

O colapso da estrutura brasileira na área de saúde, para atender os casos do coronavírus, pode estar muito próximo. Esta foi a análise feita por um estudo, divulgado na última quarta-feira, realizado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard (EUA), que teve participação da UFMG e da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde. O resultado foi a projeção que os serviços hospitalares de todo o país devem começar a sofrer escassez de leitos hospitalares, leitos de UTI e ventiladores já no início deste mês de abril.   

Os pesquisadores simularam cenários para nove macrorregiões de saúde. Para Belo Horizonte e região metropolitana, a previsão é de esgotamento de seus leitos hospitalares entre o dia 27 deste mês a 1º de maio. 

Para evitar o sobrecarregamento, algumas soluções são apontadas como a construção de hospitais de campanha para que mais leitos e ventiladores estejam disponíveis, maior isolamento da população e mais testes em circulação que possam detectar a doença. "Reaproveitar grandes espaços para construir hospitais improvisados para leitos adicionais é fundamental. A mobilização de líderes comunitários, artistas, atletas e pessoas locais ajudaria a transmitir uma mensagem única à população e a reunir apoio dos ricos que poderiam fornecer recursos para expandir a produção de equipamentos médicos. Sem ações intensificadas, ou pior ainda, se as ações atuais forem afrouxadas, o Brasil pode enfrentar a necessidade de implementar diretrizes para o racionamento de recursos de saúde", indica Lucas Carvalho, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da UFMG, um dos integrantes da pesquisa. Hoje em Harvard, Márcia Castro, que fez seu pós-doutorado na UFMG, foi a responsável redação do texto, além da visualização, análise e interpretação dos dados. 

"Ações adicionais para conter a transmissão e mudar a trajetória atual da epidemia devem ser tomadas. O shutdown parcial foi iniciado em muitas cidades brasileiras, mas a adoção está longe de ser ideal. Aumentar a disponibilidade de testes permitiria ao governo rastrear e testar de forma abrangente todos os contatos de casos positivos, uma estratégia adotada com sucesso pela Coréia do Sul", completa. 

Apesar do foco do estudo ser o SUS, uma ideia sugerida foi colocar temporariamente todos os hospitais privados sob o controle do Estado, medida adotada pela Espanha.  O projeto teve caráter de urgência, em virtude do viés alarmante da pandemia. Apesar da sugestão, o resultado desta ideia era de que seu efeito seria insuficiente. "Soluções que não envolvam a abertura de novas instalações terão um efeito muito curto no momento da escassez”, escrevem os integrantes do estudo.

Enquanto medidas paliativas são capazes de atrasar o esgotamento de leitos, leitos de UTI e respiradores em uma semana, ações mais efetivas podem resolver o problema. “Há uma pequena janela de oportunidade para se preparar. A resposta deve ser imediata e exigirá um esforço conjunto da sociedade", destaca Carvalho. 

 

Preocupação com população mais pobre

Uma parte da população brasileira gera a necessidade de se pensar no combate ao coronavírus de uma forma mais ampla. Afinal, a velocidade de transmissão do vírus é grande e pode afetar todas as camadas da sociedade. Com menor renda, os moradores de comunidades e favelas têm maior dificuldade de realizar o isolamento social e podem sobrecarregar o SUS em caso de contágio. 

"É provável que a epidemia do COVID-19 exacerbe as desigualdades existentes se as pessoas que dependem exclusivamente do SUS forem as mais atingidas. Em comunidades com alta densidade populacional e infraestrutura precária, é inviável praticar o isolamento social. Nessas áreas, é provável que a transmissão ocorra rapidamente e como a  população dessas localidades depende principalmente do SUS, sobrecarregará rapidamente o sistema de saúde", lembra o pesquisador.

O que pode contar a favor é a boa estrutura do SUS. No entanto, as condições inicialmente favoráveis podem ser prejudicadas em caso de um sobrecarregamento. "O SUS é o nosso maior trunfo. O Brasil possui um sistema de saúde gratuito e universal, um dos maiores programas comunitários de atenção primária, que atende 74,8% da população. Além disso temos um histórico de resposta a ameaças à saúde implementando ações governamentais e gerando evidências científicas de alta qualidade, como por ocasião do surto de infecção pelo zika vírus. Podemos aprender também com os erros e acertos dos países que já estão em uma etapa de infecção mais avançada", sugere. 

 

Análise

Os números se basearam em dados obtidos em relação ao que foi apresentado na China e Itália. "Com a projeção dos casos, utilizamos as taxas de infecção e de complicação que demandariam internações da China para calcular o número de leitos de internação que possivelmente seriam demandados, por dia (com um intervalo de confiança de +-3%). Também adotamos dois cenários: o da China, com 5% dos casos demandando UTI e o da Itália, com 12% dos casos demandando UTI. Dessas internações em UTI, fizemos a hipótese que 5% vão precisar de respiradores ou ventiladores mecânicos", detalha o pesquisador. 

Por meio do cadastro da oferta de todos os leitos, UTI e ventiladores existentes no país, o estudo calculou a data média de quando esses equipamentos devem se esgotar. Algumas dificuldades para se precisar o período foram a ocupação de leitos e equipamentos atendendo a outras doenças. Dentro deste cenário, seriam usados somente os leitos livres. Outra ideia era a desocupação de 50% dos leitos por meio de cancelamento de cirurgias eletivas ou o isolamento da população.

Também entrou na conta a demanda entre os planos de saúde e o sistema público, considerando três cenários com foco no SUS: só a população que não tem plano de saúde irá usar o sistema público, 80% da população brasileira irá usar o sistema público e os leitos serão estatizados e toda a população usa o sistema público. "Com esses 12 cenários conseguimos calcular uma data média que possivelmente os leitos, leitos UTI e respiradores irão de esgotar", explica Carvalho. 

 

Setor industrial pode colaborar

O curto prazo para a escassez da estrutura tem relação com a projeção sobre o número de infectados, tema de um outro estudo realizado por Rafael Ribeiro, professor de Economia da UFMG. Analisando números do Ministério da Saúde relativos a casos confirmados e estimativas do IBGE sobre tamanho da população de cada estado, ele avaliou quando deverá ocorrer o pico da doença em muitos Estados, assim como o número de infectados. Em Minas Gerais, o pico do surto de Covid-19 deverá ocorrer entre 27 de abril e 11 de maio, e a estimativa é de que haja, então, 2,5 milhões de infectados no estado.

Os equipamentos da rede de saúde do Estado podem não ser suficientes, mas podem ter algumas iniciativas como formas de prevenção. "Os trabalhadores informais, micro-empreendedores e pessoas de baixa receberem uma renda mínima e emergencial, que até poderia ser mais alta do que os R$ 600 estipulados, é um caminho. Desta forma, essa parcela da população teria mais condições de ficar em casa. Mas o setor industrial também pode atuar", comenta o professor. 

"Empresas desta área podem ser estimuladas a adotar um redirecionamento na sua produção. Ventiladores precisam de mais complexidade e investimento, além de planejamento. Mas é possível que indústrias convertam sua produção para máscaras, que são de fácil confecção e podem acontecer em larga escala. Seria de grande ajuda para aumentar a taxa de recuperação e evitar a propagação da pandemia", pontua

 

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários