Entrevista

Para economista, momento é de seguir recomendações das autoridades de saúde

Sérgio Martins faz uma análise sobre o panorama atual e o que pode acontecer com o pós-coronavírus

12/04/2020 05h00
Por: Marconi Lima

A crise gerada pela pandemia coronavírus ligou sinal de alerta não apenas nas autoridades sanitárias, mas também na economia. Parece consenso em todo o mundo que enfrentará uma recessão. A proporção que essa retração irá chegar ainda não se pode saber.

Autoridades em todo o planeta estão adotando medidas para atenuar ao máximo os efeitos da crise. É fato, que os governos terão que injetar dinheiro na economia para socorrer trabalhadores e empresas. O economista Sérgio Martins, em entrevista ao JORNAL DE UB ERABA, faz uma análise sobre o panorama atual e o que pode acontecer com o pós-coronavírus.

 

JORNAL DE UBERABA – A nomeação do economista Paulo Guedes para o Ministério da Economia trouxe a perspectiva da implantação de um regime chamado liberal. Seria enfim, aquela velha máxima do tal "Estado Mínimo". Mas, a crise provocada pelo coronavírus, de alguma forma renova essa discussão, uma vez que o Estado terá que intervir fortemente na economia. Por que tivemos que encarar uma grave crise sanitária, para levantar essa questão?

Sérgio Martins - Realmente havia expectativas do mercado e dos investidores de mudança de rumos para a economia brasileira. Ocorre que estas foram superdimensionadas por um grande conjunto de forças políticas e econômicas internas e também no exterior, considerando que haveria um boom de crescimento econômico acompanhado de redução drástica dos níveis de desemprego e aumento da renda média. Melhor dos mundos, senão o fim do atraso; esperava-se.

Entretanto, antes mesmo do advento do coronavírus e passados 14 meses desde a posse do novo Governo eleito em 2018, constata-se exatamente o contrário daquilo que se planejou. É de bom tamanho dizer que fortes alterações de Política Econômica são de longa maturação devendo estas serem acompanhadas de medidas fiscais, monetárias, cambiais e de rendas.

Neste sentido, para a implementação de uma economia baseada no princípio do Liberalismo Econômico onde o chamado "Estado Mínimo" pudesse ser viabilizado, era necessária a execução de programas envolvendo esse conjunto de políticas. Porém, pouco disso ocorreu e o investimento estrangeiro não se concretizou como era o esperado. A principal razão foi o grau elevado de desconfiança externa e de incertezas internas. Soma-se a essa conjuntura, o alto nível de desencontro das ações do Governo com as do resto do mundo, como foi o caso emblemático, ano passado, da crise envolvendo o meio ambiente e suas sequelas internacionais.

Talvez não precisássemos de uma crise sanitária para tirar a economia brasileira da crise econômica– em boa medida de confiança. Não é preciso ser liberal para não adotar a intervenção parcial do Estado na Economia. Até liberais, que defendem um Estado enxuto, apoiam a ajuda do Governo. Nosso nível de desenvolvimento ainda depende do Estado como financiador de políticas públicas capazes de produzir a redução das desigualdades. Mesmo em países de economia madura, o Estado ainda é quem financia o gasto público com serviços essenciais como saúde, educação e segurança. 

 

JU – E agora, estamos diante de um dilema, com essa crise sanitária. Os órgãos de defesa da Saúde defendem o isolamento social, enquanto alguns movimentos, com apoio do presidente da República, defendem que apenas alguns segmentos fiquem em isolamento, mas que a economia siga seu fluxo normal. É possível essa crise, de uma forma ou de outra, não interferir na economia? Ou seja, ainda que fosse liberada a circulação de pessoas, o Coronavírus não teria algum impacto na economia?

Sérgio - Penso que devemos seguir as recomendações das autoridades de saúde internacionais, sobretudo observando as que passaram pela pandemia, as que estão sofridamente passando e também as que estão encontrando êxito nas medidas de contenção do convívio ou isolamento social. 

Infelizmente, o Presidente divide o País, se dirigindo e divulgando para seus seguidores a mensagem de que não haverá problemas de contágio com a normalidade da circulação de pessoas e o retorno ao trabalho. 

Entretanto, haverá sim uma forte recessão, mesmo se parte da população voltar a circular e as atividades comerciais forem restabelecidas. Do mesmo modo, haverá também recessão com o isolamento social. Estudo da Fundação Getúlio Vargas prevê que a economia vá encolher 4,4% em 2020. As projeções para a economia brasileira que já não ia tão bem quanto o mercado esperava, despencaram com a chegada do coronavírus.

 

JU – Sobre a campanha "O Brasil não pode parar" é inspirada em uma peça que surgiu em Milão, na Itália e teve o apoio do prefeito, Giuseppe Sala, o "Beppe" Sala. A campanha Milano non si ferma, provou-se um desastre, tanto que o Beppe Sala veio a público pedir desculpas. A Itália foi duramente atingida pelo coronavírus. Agora, com o confinamento, ainda é possível não deixar a economia morrer?

Sérgio - A economia não vai morrer. Vai sofrer um duro golpe chamado recessão e terá "filhotes" como aumento do desemprego, empresas fechadas, crescimento do endividamento das famílias, redução da renda e ampliação ainda maior das desigualdades sociais. 

Precisamos aprender com os erros alheios, como é o caso italiano e não incorrermos no risco de pagar para ver como eles estão pagando – e muito caro. Economistas italianos e da UE (União Europeia) estimam queda de 10% a 15% do Produto Interno Bruto daquele país em 2020.

 

JU – Os governos do mundo afora vão investir parte da sua riqueza, o Produto Interno Bruto (PIB) para justamente evitar uma crise ainda maior. Vão dar dinheiro as pessoas e também as empresas. Nos Unidos, serão 6,5% do PIB; a Alemanha, 12% e o Reino Unido, 17%. As medidas adotadas no Brasil, até a discussão do chamado orçamento de guerra, somam 2% do PIB. O Brasil pode mais?

Sérgio - O aumento dos gastos dos Governos no mundo é urgente, necessário e inquestionável para evitar o colapso provocado pela pandemia e também para combater o mal maior: o caos social. Por isso o Estado deve intervir injetando recursos e, rapidamente. Mas, parece que vai demorar.

Penso que esses 2% do PIB serão insuficientes. O Ministro da Economia está prevendo injeção de R$ 600 bilhões, (incluídas as ajudas financeiras e benefícios para pessoas e empresas, além do sistema financeiro), o que daria algo em torno de 8,2% do PIB de 2019 (R$ 7,3 trilhões). 

Não é possível estabelecer comparações com a ajuda de 2 trilhões de dólares dos americanos com a nossa de 600 bilhões de reais (6%), mas há variado arsenal de medidas como suspensão da cobrança da maioria das contas e tributos durante 1 ano, por exemplo. 

 

JU - O economista Raul Velloso, ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento, é considerado um dos maiores especialistas em contas públicas do país, achou tímida a ajuda aprovada no Congresso, com o apoio do governo, para pagamento de R$ 600 aos trabalhadores informais por três meses. Para ele, esse valor deveria ser de pelo menos R$ 1 mil e por um ano. O senhor concorda?

Sérgio - Concordo. O valor sugerido pode dar fôlego fiscal ao Governo, uma vez que haverá queda significativa na arrecadação de tributos da ordem de 26% para 2020. É parte desse dinheiro que voltará aos cofres públicos via impostos.

Outro motivo é o combate à drástica redução da renda, sobretudo a dos informais que representam quase a metade da PEC (População Economicamente Ativa). Com a previsão de renda continuada e o indicativo de validade, as pessoas podem vislumbrar dias melhores, sem a ideia de assistencialismo, ainda perversa e presente no Brasil.

 

JU – Recentemente, o Brasil encarou uma recessão. Foram dois anos de PIB negativo, que somados renderam uma retração na casa dos 7%. O PIB do ano passado foi positivo, 1,1%. Mas, para esse ano já se fala em crescimento zero, ou até mesmo uma retração. Isso certamente terá impacto no próximo ano. A recuperação da economia brasileira ainda deve levar muito tempo?

Sérgio -Temos de dois a três anos para retomarmos o crescimento da economia, caso haja ambiente político, confiança de investidores e investimento público. Analistas indicam que a crise, por não ser financeira e sim na economia real, pode demorar até mais tempo.

 

JU – Essa crise do coronavírus pode fazer com que, não apenas os governos repensem sua forma de agir na economia, mas também pode fazer com que modelos de negócios sejam revistos? E falo desde as grandes empresas, até o mais simples empreendedor individual?

Sérgio - Penso que a agenda de negócios daqui para frente será transformada. O mesmo pode ocorrer com o papel do Estado, mais como gestor dos recursos provenientes dos cidadãos (e em benefício deles), do que mero agente arrecadador e distribuidor de desigualdades e da concentração da renda. 

Me parece que há um caminho sem volta quanto à qualidade das relações de trabalho. Empresas de todos os tamanhos já estão se reinventando, assim como os trabalhadores deverão receber apoio e orientação para se qualificarem, a fim de estarem preparados para os novos desafios que a tecnologia irá exigir. Neste sentido, o papel do Estado é fomentar políticas públicas que alcancem esse novo cenário.

 

JU – O trabalho Home Office pode ser uma tendência no mundo dos negócios a partir dessa crise do coronavírus?

Sérgio - As experiências desta modalidade no presente momento está indicando uma tendência de mudança de patamar nas relações de trabalho. Mais empresas e mais colaboradores irão amadurecer objetivos comuns.

 

JU – Quais as lições que ficam para a nossa economia com essa crise sanitária?

Sérgio - Ainda é cedo para predizer, mas é possível pensar que a primeira lição está relacionada à forma com que se tem tratado a vida humana. No Brasil, houve a tentativa de substituir a vida pelo manutenção dos ganhos financeiros. 

Dentre outras lições, podemos dizer da importância de poupança interna robusta. Por não a termos formada, arcaremos com o ônus do aumento da dívida pública. 

Quanto ao papel do Estado, é possível afirmar que não será o mesmo. Hoje o Governo adota princípios pouco republicanos ao distribuir de forma injusta o produto de sua arrecadação.  

Ao final, analisando as experiências nossas e dos outros países, talvez seja importante refletir sobre o dilema socioeconômico: contar os falidos ou os falecidos? 

 

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