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Covid-19

Usar muito álcool em gel pode aumentar a resistência das bactérias?

Especialista explica por que o uso exagerado de produtos de limpeza e desinfetante para as mãos pode aumentar a resistência dos microrganismos — e colocar em risco a saúde

19/04/2020 05h00
Por: Redação
Fonte: Galileu
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, cientistas e governos têm aconselhado as pessoas sobre as melhores práticas de higiene para se protegerem. Esse conselho causou um aumento significativo na venda e no uso de produtos de limpeza, álcool em gel e desinfetantes para as mãos. Infelizmente, essas instruções raramente vêm com orientações sobre como usá-las com responsabilidade ou sobre as consequências de seu uso indevido.

Mas, como no uso indevido de antibióticos, o uso excessivo de produtos de limpeza e desinfetantes para as mãos pode levar à resistência antimicrobiana das bactérias. Há uma preocupação de que o uso excessivo desse material durante a pandemia possa levar a um aumento no número de espécies bacterianas resistentes a antimicrobianos.

Isso colocaria uma pressão maior em nossos sistemas de saúde, já em dificuldades, potencialmente levando a mais mortes. Além disso, o problema pode continuar para muito além do fim da pandemia atual.

Antimicrobianos (incluindo antibióticos, antiprotozoários, antivirais e antifúngicos) são importantes para a nossa saúde. Eles nos ajudam a combater infecções, principalmente se o seu sistema imunológico estiver fraco ou comprometido.

No entanto, alguns organismos (como bactérias) podem mudar ou sofrer mutações após serem expostos a um antimicrobiano. Isso os torna capazes de resistir aos medicamentos projetados para matá-los. À medida que o uso, correto e indevido, desses produtos se tornam mais disseminados, o número de cepas resistentes aumenta — e as infecções que antes eram facilmente tratadas agora estão se tornando fatais.

Os processos que levam à resistência antimicrobiana são muitos e variados. Uma rota é por meio da mutação. Algumas mutações ocorrem após o DNA da bactéria ter sido danificado. Isso pode acontecer naturalmente durante a replicação celular ou após a exposição a produtos químicos genotóxicos, que danificam o material genético da célula. Outra via é quando o microrganismo adquire genes resistentes de outra bactéria.

Geralmente (e corretamente) associamos a resistência antimicrobiana ao uso indevido de medicamentos, como antibióticos. O uso indevido pode incluir hábitos como a falha na conclusão de um curso de antibióticos ou ignorar os intervalos diários de dose. Ambos podem aumentar a chance das cepas das bactérias mais resistentes de uma população sobreviverem e se multiplicarem.

Mas as bactérias também podem adquirir resistência após o uso inadequado ou excessivo de certas substâncias químicas, incluindo produtos de limpeza. Diluir agentes desinfetantes ou usá-los de forma intermitente e ineficiente pode fornecer uma vantagem de sobrevivência para as cepas mais resistentes. Em última análise, isso leva a uma maior resistência geral.

Para piorar a situação, os “especialistas” da internet e das mídias sociais oferecem conselhos sobre como fazer desinfetantes e álcool em gel caseiros para as mãos que, segundo eles, podem matar o vírus. Mas, para a maioria desses produtos, não há evidências de que sejam eficazes. Também não há consideração sobre possíveis efeitos adversos do uso deles.

O que sabemos é que muitos desses produtos caseiros contêm ingredientes como álcool que, nas quantidades certas, possui propriedades antibacterianas. Qualquer coisa antibacteriana tem o potencial de aumentar a resistência antimicrobiana.

 

Ingredientes comuns

Como toxicologista, estou preocupado com o fato de que mais microrganismos possam se tornar resistentes a antimicrobianos como resultado de mutações — causadas principalmente pela exposição a produtos químicos encontrados em materiais de limpeza e de higienização das mãos comprados em lojas e feitos em casa. Muitos deles (incluindo fenóis e peróxido de hidrogênio) têm o potencial de danificar ou alterar o DNA e, às vezes, são chamados de agentes genotóxicos.

Uma pequena quantidade de dano ao DNA decorrente do metabolismo celular normal é comum, particularmente na multiplicação rápida de bactérias, e esse dano é normalmente reparado da forma correta. Mas se houver prejuízos extensos no material genético ou se o reparo não estiver correto, a célula poderá não sobreviver.

No entanto, é mais provável que ocorram mutações nos poucos casos em que a genotoxicidade não é reparada com precisão e a célula sobrevive. Algumas dessas células podem criar uma vantagem de sobrevivência, como resistência antimicrobiana. Quanto mais frequentes os eventos genotóxicos, maior a probabilidade de algumas células sobreviventes adquirirem essa resistência antimicrobiana.

Muitos dos ingredientes de vários agentes de limpeza e desinfetantes para as mãos recomendados pela Organização Mundial da Saúde têm o potencial de causar danos ao DNA e podem levar às mutações necessárias para a resistência antimicrobiana.

Os ingredientes, comuns em muitos produtos de limpeza e desinfetantes para as mãos, incluem álcoois, compostos de amônio quaternário, fenóis, peróxido de hidrogênio, surfactantes, cloreto de benzalcônio e triclosan. O uso de alguns desses compostos já foi associado a um aumento na resistência antimicrobiana. O atual incentivo do governo à utilização de produtos com esses compostos — sem avisos claros sobre as consequências do uso indevido — precisa ser alertado.

Ao usar desinfetantes para as mãos, álcool em gel e produtos de limpeza, trate-os como se fosse um medicamento com receita médica. Leia as instruções cuidadosamente, pois qualquer desvio pode torná-las ineficazes. Evite diluir ou combinar produtos pré-preparados com outros. Somente faça produtos de limpeza e desinfetantes caseiros usando receitas de sites do governo com ingredientes comprados em lojas confiáveis.

Nossas tentativas de nos proteger da Covid-19 também podem estar criando um ambiente em que mais microorganismos resistentes a antimicrobianos podem surgir. Como a resistência antimicrobiana já causa mais de 700 mil mortes por ano em todo o mundo, é importante agir com cautela para evitar mais impactos.

 

Texto originalmente publicado em inglês no portal The Conversation.

*Winston Morgan é estudante da Toxicologia e Bioquímica Clínica na Universidade de East London, na Inglaterra

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