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O ZÉ BOSTINHA

Sylvio Fausto de Oliveira

Certa manhã, na pacata cidade de Barro Preto, explodiu uma bomba: constava que o popular Zé Bostinha, um homem de meia idade, estatura miúda e franzina, cabelos pretos e longos sobre os ombros, barba pequena e rala no queixo, com traços de um mameluco, pobre mais para indigente, havia morrido. Na cidade, quase ninguém sabia explicar qual a origem da alcunha tão depreciativa do popular Zé Bostinha. Para o seu xará Zé Farofa, o apelido nasceu no dia em que alguém da cidade ao ver o Zé fazer um trabalho mal feito, deve ter dito: “Zé, você não presta pra nada, não passa de um bostinha.” Zé Bostinha vivia de biscates, ora limpando um jardim, ora capinando um quintal, quando ganhava um prato de comida e uns trocados. Nessa época, como não havia supermercado, Zé Bostinha fazia o favor de comprar um quilo de açúcar na venda do Quinzinho para uma dona de casa, ou um maço de cigarros no bar do Peri para o senhor Amadeu, quando ganhava uma gorjeta. Com o dinheiro, Zé Bostinha tomava umas pingas, ficava embriagado, andando cambaleando pelas ruas, quando a criançada mexia com o coitado lhe jogando pedras e gritando: Zé Bostinha, Zé Bostinha, Zé Bostinha, que reagia correndo atrás da molecada. O popular e amigo do povo de Barro Preto, não morrera de morte natural, mas fora assassinado no interior de um casebre da periferia da cidade. Como era muito conhecido, muito querido, a morte do Zé Bostinha teve enorme repercussão, mormente entre a criançada, que perdera um amigo de correrias e pedradas pelas ruas da cidade. A morte do Zé Bostinha virou notícia no recreio das escolas, nas salas de aulas, nas portas dos bares, nas barbearias, nas vendas, nas rodas dos bancos do jardim da praça, nas reuniões sociais, ao senhor delegado de policia: quem matou o Zé Bostinha? Constava que o padre, na missa, ao invés de dizer aos fieis: O senhor esteja convosco, primeiro perguntou: Quem matou o Zé Bostinha?
Um mês depois do assassinato do Zé Bostinha, quando o fato era ainda muito comentado, mas nada da policia por a mão no assassino, um padre missionário visitou o primeiro ano do grupo escolar, composto de crianças pobres e carentes da periferia da cidade, com o intuito de bater um papo com as mesmas sobre religião. Com uma voz macia, dizia o padre que ali estava para falar da vida de um homem bom e caridoso, que nasceu na cidade de Belém, que tinha cabelos compridos e barba grande, que andava no meio do povo, pregando o amor e a bondade, que morreu na cruz para salvar a humanidade.
Ao terminar a palestra, o padre voltou-se para os alunos, que ouviram com atenção a descrição de Jesus, e lhes perguntou:
– Quem sabe o nome de santo homem?
Mais que depressa, bem na frente da sala, um menino de nove anos, olhos vivos, se levantou da carteira e respondeu:
– Eu sei, eu sei, sô padre: Ele chama Zé Bostinha.

Sylvio Fausto de Oliveira – Promotor de justiça aposentado, escritor e membro da Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais.

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