Política

Os dilemas na Saúde: Longas filas, epidemia e falta de médicos nas UBSs

Larissa Alves Correia
Especial para o JU

Secretário Municipal de Saúde, Iraci José de Souza Neto, fala sobre os problemas que a cidade vem enfrentando na área

Nesta semana o secretário Municipal de Saúde, Iraci José de Souza Neto, concedeu entrevista exclusiva ao JORNAL DE UBERABA para dissertar acerca da superlotação das UPAs, a importância das UBSs e sobre o alto índice de casos prováveis de dengue na região este ano. Ocupando a cadeira desde 2017, Iraci falou ainda sobre os projetos de ampliação na carga horária dos médicos do Sistema Único de Saúde, da necessidade de conscientizar a população sobre como explorar as Unidades Básicas como porta de entrada para encontrarem tratamento com especialidades específicas. E abordou temas como promoção e prevenção da saúde por meio da própria população e os cuidados a se ter com as crianças por meio de alimentação e assepsia.

JORNAL DE UBERABA – Atualmente vemos o grande número de pessoas nas UPAs, procurando por atendimento médico. Qual o plano da Secretaria de Saúde para reduzir a lotação das UPAs e agilizar os atendimentos?
IRACI NETO – O conceito das Unidades de Pronto Atendimento é bastante especifico. Lá é uma unidade para urgência e emergência para usuários do Sistema Único de Saúde que correm risco de vida. A UPA é um serviço que precisa ter a sua resolutividade, uma qualidade e estrutura operacional para equilibrar e estabilizar o problema do paciente. A população precisa se conscientizar de que as UPAs atendem serviços emergentes, como, por exemplo, um pico de hipertensão em um final de semana ou mesmo na semana à noite. A UPA não vai tratar o problema, apenas estabilizam o problema e dão as devidas orientações para que o paciente encontre o tratamento necessário. No entanto, há uma série de fatores que contribuem para que as UPAs fiquem superlotadas, devemos levar em consideração também fatores momentâneos que é a falta de profissionais nas UBS. As vezes um médico sai de férias e a burocracia para se colocar outro no lugar é grande, e demanda tempo – pode-se levar até 30 dias para colocar outro profissional no lugar.

JU – O senhor falou a respeito de a população procurar as UPAs acreditando que vão tratar problemas de saúde específicos e que este não é o conceito da Unidade. Mas será que a população não vai à UPA com esta ideia, uma vez que os atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde são demorados, e que se encontra uma enorme dificuldade no agendamento de consultas?
IN – Nós entendemos as dificuldades encontradas no Sistema Único de Saúde, mas precisamos levar em conta que também há uma dificuldade em conseguir algumas especialidades mesmo que por meio de convênios. Temos consciência desta dificuldade e estamos buscando solucionar, que é o acesso da população às UBSs, ampliando a agenda médica. Atualmente, o programa nacional é um programa de promoção, prevenção e assistência. O médico faz assistência de consultório, o clínico, e metade da sua carga horária faz promoção e prevenção de saúde com grupos, atividades nas escolas, atividades com gestantes, hiperdia [grupo de hipertensão], puerpério, idosos. Então tem diversos programas que estão vinculados à um modelo que é nacional e por isto o médico clínico geral das UBS não tem uma carga horária só de consulta. Mas estamos buscando ampliar essa agenda, para que sejam atendidos um número maior de consultas programadas, e 30% da carga horária em livre demanda – que são aquelas situações inesperadas, mas que pertencem às Unidades Básicas de Saúde.

JU – Sabemos que a UPA do Mirante deixou de prestar serviços de pediatria, concentrando assim, todos os atendimentos no Hospital da Criança que em época de endemia e epidemia não comporta todas as pessoas que buscam atendimento. Quais foram as razões que levaram a secretaria a promover essa transição, uma vez que o atendimento lá no Mirante se dava de forma tão plena e contando com excelentes profissionais?
IN
– Primeiro que, o atendimento da UPA sempre foi questionado quanto às crianças. O Hospital da Criança é uma referência para atender as crianças, e precisávamos retirar essas crianças do convívio de um ambiente de circunstâncias nas UPAs, com drogaditos, pessoas alcoolizadas, ocorrências de brigas, polícias chegando com marginais. Fora o risco de infecções a que estas crianças estavam expostas. Não foi uma decisão precipitada, existiu uma comissão técnica, e então foi uma decisão muito estudada, com muita solidez e segurança. Mas também tivemos o posicionamento do próprio hospital, que precisava aumentar sua demanda, pois senão ele iria para um caminho que não teria mais volta. É um hospital de mais de 80 anos em Uberaba. Então, fizemos todo o projeto, tentando dentro de estatísticas e dos números que tínhamos criar metas físicas de atendimento, só que estamos vivendo uma situação atípica neste momento. Há uma crise assistencial em saúde pública no Brasil. As pessoas estão doentes e não se preocupam em prevenir problemas de saúde, inclusive em crianças, uma vez que os pais trabalham e no dia-a-dia convivem pouco com os filhos e não tem tempo de acompanhar de perto a alimentação e cuidados básicos dos filhos. São variáveis que não podemos controlar e que contribuem para a superlotação da UPA da criança. A espera é visível. Mas todas as crianças que chegam na UPA são muito bem atendidas. Existe também a questão da infraestrutura, mas, infelizmente, agora o município não tem como aportar recursos a mais para ampliar a estrutura profissional porque também estamos vivenciando uma crise econômica. Infelizmente uma coisa está atrelada a outra. Não é segredo para ninguém que o estado tem uma dívida conosco de cerca de R$65milhões e, com esse recurso, poderíamos estar balanceando e investindo nesta assistência na atenção básica.

JU – Notamos que nos últimos dias os números de casos prováveis de dengue na cidade têm diminuído. Quais serão os cuidados que a prefeitura vai tomar para que no próximo ano tenhamos uma menor incidência nos casos da doença?
IN
– Este foi um ano considerado de epidemia, não só em Uberaba, mas a nível de Brasil, isso foi dito em pesquisa pelo Ministério de Saúde. Já era esperado uma iminente epidemia ou endemia de dengue dentro do país, e nossa região tem um clima propício para isto. Costumo pontuar três situações em que não temos controle absoluto. Uma delas é sobre o vírus da dengue que está circulando na nossa região, e nunca circulou antes, que é o sorotipo 2. O clima propício à proliferação do mosquito se estendeu por mais de 60 dias. Estamos falando de um período sazional da dengue de cinco para sete meses, iniciando no final do ano anterior, e terminando no meio do ano subsequente. E o terceiro fator ao qual não temos controle, que é a população. Porque a população não se conscientiza a respeito da limpeza da cidade e de seus quintais. Já fizemos levantamentos que nos aponta que os principais potenciais de criadouros do mosquito Aedes estão dentro das casas, vasos de plantas, reservatório atrás de geladeiras mais antigas, copo descartável e garrafa pet jogados no quintal, a vasilha com água para o cachorro. Então, precisamos conscientizar a população. E fazemos campanhas muito fortes, até mesmo por meio da mídia. Porém, nosso retorno nem sempre é positivo.

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